Círio esquenta programação cultural de Belém

(Foto: Arquivo DOL)

Da varanda de seu apartamento no edifício Palácio do Rádio, na Avenida Presidente Vargas, em Belém, o professor de língua portuguesa e literatura, Roberto Fadel, vê todo segundo domingo de outubro um rio cuja correnteza segue no sentido da fé de mais de dois milhões de pessoas que seguem a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.

O Círio, para ele, está muito além de uma simples procissão de devoção mariana e representa um grande poema que conta – e por si só descreve – as ações de atos heroicos transcorridos durante um momento de grandes conflitos e que foram superados, talvez por uma força divina. O Círio de Nazaré, neste sentido, passa a ser visto e vivenciado como uma epopeia que o paraense reescreve a cada ano e, por meio dela, se apresenta ao mundo como um povo singular.

“Não é uma epopeia clássica como ‘Os Lusíadas’, de Luís Vaz de Camões, mas é uma epopeia cristã. A epopeia precisa sair do comum e o Círio não é uma procissão comum, é um momento extraordinário que envolve a ação, o herói (ou os heróis) e o Maravilhoso”, constata Fadel, que identifica na maior manifestação religiosa do Brasil os três principais elementos de uma epopeia.

Quando o caboclo Plácido encontrou a imagem de Nossa Senhora de Nazaré por volta do ano de 1700, introduziu de certa forma uma grande manifestação de fé que, no decorrer do tempo, só teve a crescer e hoje faz parte da identidade de cada paraense, que no mês de outubro se apresenta mais sensível e receptivo. “O mundo veio conhecer o Pará pelo Círio de Nazaré”, comenta o professor de literatura.

Plácido acaba representando um herói individual dentro da epopeia que é o Círio. “A ação dele (Plácido) trouxe mudanças culturais em nossas vidas. E o povo acaba se tornando o herói coletivo, porque vive esse grande momento que é o Círio”, diz Fadel.

A força que nunca seca

Quando a procissão do próximo domingo começa, logo no nascer do sol, milhares de pessoas seguem numa única direção. Cada uma delas com um propósito individual, mas que se assemelham na fé. Junto da padroeira, Nossa Senhora de Nazaré, cada romeiro se apresenta destemido por se sentir envolvido no grande manto de Maria.

Todo o enredo do Círio denota a ação da epopeia, do feito célebre de cada pagamento de cada promessa depositada na Virgem de Nazaré, que ajudou um enfermo a se curar, um humilde a realizar o sonho da casa própria, ao desempregado que conseguiu emprego e faz chorar mesmo quem não acredita. “O Círio nos traz orgulho, é algo fenomenal é extraordinário”, exalta Fadel.

É justamente neste “extraordinário” que se percebe o terceiro elemento da epopeia: o Maravilhoso. “É a intervenção divina que favorece o desenrolar da ação. Nossa Senhora, no Círio, deixa de ser apenas uma imagem e representa uma força que nunca seca”, conclui o professor Roberto Fadel.

Fé que se vive em fotos, mantos e telas

A cidade já está respirando outros ares. Parentes, amigos e turistas já começam a chegar a Belém para viver um momento único de amor e fé. Órgãos, instituições, empresas acompanham o evento que faz as ruas se transformarem em rios de gente, seja através de homenagens ou enfeites, porque é Círio outra vez.

O Parque Shopping entrou no clima e está com três exposições sobre o tema. A primeira é uma mostra fotográfica que revela o olhar de Aluisio Almeida após sua experiência no Círio de Nazaré. “Sempre participei do Círio com a emoção dos que assistem, mas acompanhar no meio das pessoas e viver a energia de amor presente na romaria é inesquecível”, diz o fotógrafo com um brilho nos olhos, típico de quem é apaixonado pelo que faz.

Aluisio intitulou a mostra de “Elementos do Manto de Amor”. Segundo ele, quando a cantora Joana cantava “Nossa Senhora”, ele percebeu a multidão como um gigantesco manto de amor que envolvia a Cidade das Mangueiras e que cada elemento que fotografava construía esse manto. “É um privilégio poder apresentar o meu olhar a vocês dessa grande festa paraense. Espero que possam sentir comigo um pouco dessa energia amorosa de Nossa Senhora e das pessoas que compõem esse grande Manto de Amor”, finaliza Aluisio Almeida.

Mantos

A segunda exposição reúne arte, beleza, cor e estilo através de mantos confeccionados pelo estilista Luiz Langer. Para ele, o Manto remete ao amor de mãe pelos seus filhos. “O Manto de Nossa Senhora de Nazaré é uma peça que nos recorda a “manta” que um dia fomos envolvidos por nossa mãe, enquanto criança. Assim é o Manto de Nossa Senhora, que nos envolve sobre sua maternal proteção”, explica.

Segundo Langer, é possível encontrar mantos simples e luxuosos, com pedrarias, desenhos, símbolos religiosos e muitas cores na mostra “Mantos, Religiosidade e Fé”. “Todos os mantos foram confeccionados com muito amor e muita dedicação”, diz o estilista.

Cores

Nesse furor, há uma terceira exposição, “Cores da Fé”, de Odair Mindello. Segundo a curadora da mostra, Milene da Costa, Mindello constitui em suas telas, através de formas vibrantes e traços definidos, um amplo repertório, explorando a arte POP. “Cores da Fé é um convite a se emocionar, a ver a integração dos sentidos, a elevação da cultura paraense, representada pela arte de Mindello”, diz a curadora.

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