60 anos sem Carmem Miranda: O legado da eterna “Pequena notável”

brasil lembra do saudade, da pequena notável, Carmem Miranda
brasil lembra do saudade, da pequena notável, Carmem Miranda
brasil lembra do saudade, da pequena notável, Carmem Miranda

Brasil – Um bom prato de sopa e liberdade para cantar. No auge da carreira, essa era a representação da felicidade para a cantora Maria do Carmo Miranda da Cunha (1909-1955). Considerada a artista brasileira com maior projeção internacional da história, a Pequena Notável (apelido derivado dos seus 1,52m de altura) chegou a ser a mulher mais bem paga do show business norte-americano (em 1944, recebeu o equivalente a R$ 9 milhões, em valores atualizados).

Nesta quarta-feira (05), quando completa 60 anos a morte de Carmen Miranda, a figura mítica da baixinha de olhos verdes permanece entranhada na cultura e no imaginário popular dos EUA.

No Brasil, país onde a portuguesa de nascença chegou com menos de um ano de idade, apenas uma minoria conhece a história por trás da mulher de vestes extravagantes e frutas na cabeça, como o traje de baiana a eternizou na memória coletiva.

De origem humilde, a segunda das seis filhas do barbeiro José Maria Pinto cresceu num Rio de Janeiro cuja população era estimada em 1 milhão de habitantes, sendo 200 mil deles portugueses natos. Habilidosa na costura e rápida no aprendizado de novos idiomas, foi moldada pela malandragem e boemia do bairro da Lapa.

Desde jovem sonhava ser atriz ou cantora, numa época anterior à Era de Ouro do rádio. Em fins dos anos 1920, o veículo tomava forma, enquanto o cinema deixava de ser mudo. A partir da primeira gravação de Carmen, em 1929, o sucesso veio quase instantaneamente.

No ano seguinte, com Pra você gostar de mim (Taí), venderia 35 mil discos, o equivalente a 3 milhões e meio de hoje, segundo o biógrafo Ruy Castro. A década começava com a legitimação do samba e das marchinhas de Carnaval enquanto ritmos populares. Estrelou o primeiro dos mais de 20 filmes da carreira, O carnaval cantado (1932), dirigido por Adhemar Gonzaga. Logo se tornou a artista mais bem paga do país.

O ano de 1939 foi um divisor de águas por vários motivos. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Carmen Miranda vestiu pela primeira vez o traje com o qual seria eternamente lembrada, inspirada nas vendedoras de frutas da Bahia. Com ajuda do governo de Getúlio Vargas, interessado em investir na imagem do país no exterior, a cantora se mudou para os EUA, onde se tornou fenômeno de cultura de massa. “Meus queridos amigos, sigo para Nova York, onde vou apresentar a música da nossa terra. Às vezes tenho medo da responsabilidade. Lembrem-se de mim que eu nunca os esquecerei”, pronunciou, antes de embarcar.

Foi bem recebida no exterior. Subitamente, estava na tevê, no rádio, estrelando espetáculos na Broadway e filmes em Hollywood. Era a “brazilian bombshell” (“bomba brasileira”). Segundo a pesquisadora da PUC-RS Eliane Raslan, a participação de Carmen Miranda no cinema, particularmente, tinha papel catártico: “Enquanto a população norte-americana ia assisti-la para esquecer da guerra, os brasileiros se sentiam aceitos (ou reconhecidos) diante da representante nacional no cinema estrangeiro”.

Em depoimento ao documentário Bananas is my business (1995), de Helena Solberg, o músico Aloysio Oliveira descreve a sensação da cantora diante  dos norte-americanos. “Ela não entendia o que acontecia, porque gostavam muito, mesmo sem entender o que ela cantava. Mas não era a música que os impressionava. Eram fascinados por ela. Eu ficava olhando para o rosto do público e os olhos de todo mundo ficavam grudados nela, como se estivessem hipnotizados. É como se ela tivesse outra dimensão”.

Com a aproximação do fim da Segunda Guerra Mundial, a carreira dela se encaminhava para um desfecho. Por causa do ritmo frenético de shows, consumia cada vez mais remédios para dormir e estimulantes para acordar. Em 1954, voltou ao Brasil sob forte depressão, onde passou quatro meses antes de retornar aos EUA. Em agosto do ano seguinte, após participar de programa de tevê, morreu em casa, vítima de colapso cardíaco.

“É difícil compará-la com qualquer outro artista, porque teve sucesso extraordinário tanto no Brasil quanto no exterior. Um ícone. A imagem com as frutas na cabeça se tornou parte da cultura dos EUA. No Brasil, há o problema da memória curta. Existe uma geração que conhece a imagem, mas desconhece a história de Carmen”, pontua Helena.

Carmen no Recife

 

Os sho9ws da " Pequena Notável " sempre eram lotados, como esta plateia em Recife,
Os sho9ws da ” Pequena Notável ” sempre eram lotados, como esta plateia em Recife,

Quatro meses após a passagem do Graf Zeppellin pelo Recife, em 1932, quando a cidade possuía cerca de 295 mil habitantes e 2 mil carros, atracaria no porto o navio Ruy Barbosa, de onde desembarcaria Carmen Miranda.

Com menos de dois anos de carreira, havia viajado com o pai para shows em Salvador e na capital pernambucana. Aqui, ficou no Hotel Central, na Boa Vista. Em 29 de setembro, foi chamada ao palco do Santa Isabel pelo poeta Ascenso Ferreira: “Com ela, a tragédia foi morta pelo bom humor e a tristeza nativa se mudou em festa de batuque e bombos.

Deus permita que tu botes diamantes pela boca!”. Lotada de rapazes, a plateia gritava: “Morena do céu!”. Na biografia de Carmen Miranda (2005), Ruy Castro diz que a falta de estradas e as enormes distâncias levavam os artistas a focar as carreiras no Sul e Sudeste. “Uma excursão como essa, com tantos sacrifícios, era homenagem que o artista prestava à região que visitava. Ela prestou a sua à Bahia e a Pernambuco”.

 O que a baiana tem? 

A imagem da baiana vendedora de frutas foi aproveitada por Carmen Miranda na comédia-musical Bananas da terra (1939) para a criação da personagem que ela incorporaria até o fim da carreira. O visual tutti-frutti forjou um estereótipo forte, incansavelmente parodiado ao longo dos anos.

Cor da pele 

Branca, de olhos verdes e origem europeia, Carmen Miranda se apropriou do samba, um gênero musical até então visto como símbolo da periferia, dos negros. Foi muito criticada por “embranquecer” o samba e tirar a percussão.

Ícone fashion 

As roupas extravagantes, muitas delas customizadas pela própria Carmen, tiveram forte impacto no mercado de moda. O “Miranda look” foi adaptado e usado nas ruas em todo mundo ocidental, sobretudo nos Estados Unidos. Ainda hoje, o estilo de Carmen influencia muitos estilistas. O principal legado fashion foi o uso de turbantes.

Pequena notável

Caricatura para homenagear a grande cantora
Caricatura para homenagear a grande cantora

Desde a juventude, Carmen mostrava grande habilidade com a costura e a estilização de roupas. Por muito tempo, trabalhou em lojas de gravatas e chapéus e chegou até a confeccionar as próprias peças para vender. Quando começou a fazer sucesso, providenciou uma sandália para compensar a baixar estatura (1,52m). Para muitos, ela foi a inventora do hoje popular salto plataforma.

Amazonianarede-Diário de Pernambuco

 

 

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