Pesquisa e monitoramento garantem preservação do gavião-real, a mais poderosa e predadora das aves

Amazonianarede/Osny Araújo/Fapeam 

Manaus – A coordenadora do projeto Gavião-real (Harpia harpyja), com pós-doutorado em Nicho Potencial de Harpia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Tânia Sanaiotti, contou nesta entrevista um pouco do trabalho desenvolvido para a preservação do gavião-real.

Ela explicou que as ações são desenvolvidas em comunidades amazônicas por meio de atividades de educação ambiental e por meio do trabalho de monitoramento e identificação de locais onde os ninhos estão localizados.
Cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Sanaiotti disse que o trabalho de conservação do animal iniciou em 1997, após a descoberta do primeiro ninho em uma floresta de terra-firme, próxima de Manaus. Hoje, são 75 ninhos mapeados em todo o Brasil.

Tânia Sanaiotti informou que a instituição de pesquisa conta com uma equipe que faz o trabalho de prospecção (busca dos ninhos na floresta), composta por biólogos e escaladores. Quando um novo ninho é encontrado, eles vão até o local para confirmar ou não a presença da espécie Harpia.

O monitoramento é feito com a ajuda de bolsistas do programa, funcionários de parques e reservas, além de biólogos da Fundação Neotrópica, além de graduandos de Biologia que trabalham como voluntários. O mapeamento é feito na Amazônia brasileira e tem por objetivo estudar a biologia da espécie.

TRES ESTADOS E A MATA ATLÂNTICA

O projeto abrange os Estados do Amazonas, Pará e Rondônia, além de outros cinco ninhos do Pantanal e na Mata Atlântica. O estabelecimento de uma Programação Nacional de Conservação da espécie foi possível com a parceria de instituições federais, estaduais e privadas, Organizações Não-Governamentais (ONGs) internacionais, nacionais e regionais, além do poder público municipal.

Atualmente, já foram mapeados 75 ninhos no Brasil, sendo 37 no Amazonas, 20 no Pará, três no Acre e em Rondônia e dois no Amapá. São investidos cerca de R$ 250 mil/ano sem contabilizar os salários dos profissionais das instituições envolvidas.

AMEAÇADO

Para a pesquisadora e cientista Tânia Sanaiotti essa bela e importante ave, encontra-se na lista brasileira de quase ameaçado e, internacionalmente, na categoria NT, que também significa espécie quase ameaçada.

Frisou que as comunidades do interior têm ajudado na conservação e identificação dos ninhos. Como funciona o trabalho com as comunidades e quais as alternativas dadas como forma de subsistência?

Para ela, a participação ativa de comunidades que habitam a floresta, no entorno das árvores com ninhos de gavião-real, são também a razão do sucesso na localização de novos ninhos, na coleta de dados sobre a espécie, por exemplo, coletando vestígios de presas para descrever a dieta da espécie, e monitorando a sobrevivência dos filhotes até serem capazes de voar para longe da área onde nasceram e estabelecer sua própria área de nidificação.

As pesquisas utilizando a telemetria (medição) convencional e por satélite, iniciadas em 2004 e 2007, respectivamente, favoreceram o conhecimento do deslocamento local e regional do gavião-real. Os estudos genéticos, iniciados em 2005, ampliaram para o Brasil, as coletas de dados para as diversas regiões de ocorrência histórica e atual da espécie.

As comunidades também têm ajudado, em especial diminuindo a caça e disseminando as informações entre as outras comunidades. Esse trabalho tem ajudado no retorno de notícias de novos ninhos.

Nas comunidades realizamos reuniões para detectar demandas de capacitação dos caboclos e ribeirinhos. Em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e outras instituições municipais promovemos oficinas, feiras de ciências, nas quais os alunos das escolas locais têm a oportunidade de participar, enquanto os pais recebem treinamento técnico sobre meliponicultura, adubo verde, canteiros demonstrativos, horta comunitária, viveiro de mudas, etc.

OUTROS ANIMAIS

Tânia Sanaiotti afirmou ainda que a preocupação da instituição não é exclusiva com o gavião real. Na verdade, nós atuamos proporcionando a sobrevivência da fauna de vertebrados arborícolas e terrestres. A maioria das espécies de mamíferos é beneficiada com a manutenção da reserva legal e das propriedades onde os ninhos estão localizados” – disse.

Arborícola é o termo utilizado para animais cuja vida se dá, principalmente, nas árvores, tais como muitos primatas, aves, cobras e insetos. Outra espécie que também ajudamos a preservar é o uiraçu-falso (Morphnus guianensis), que é uma ave bem semelhante ao gavião-real, porém é um pouco menor e ocorre na mesma área da Harpia.

O mapeamento de ninhos na Amazônia em muitos casos trouxe surpresas, pois ao se chegar na base de uma árvore com ninho, identificou-se que não se tratava de um ninho de gavião-real, mas de um uiraçu-falso ou de um gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), sendo que os registros de uiraçu-falso e do gavião-de-penacho na natureza são tão raros quantos os do gavião-real. Nestes casos, o Programa adotou estas outras águias de grande porte do Brasil e o monitoramento hoje atinge seis ninhos de uiraçu-falso e seis de gavião-de-penacho.

REINTEGRAÇÃO

De acordo com a pesquisadora, “temos informações de transmissores via satélite que demonstram que a espécie é muito robusta e responde bem se reintegrada à natureza. Por exemplo, um indivíduo baleado, com asa quebrada, e após fratura consolidada e reabilitada foi reintegrado na Rodovia AM-010”.

Disse ainda que a “grande ave está se deslocando há 11 meses pós-reintegração a uma distância de 60 km, indo 30 km retornando 30 km para a mesma região onde foi reintegrado. Para ter sobrevivido e voado tanto, com certeza está caçando muito bem. O que demonstra que vale a pena todos os esforços para devolver os animais feridos à natureza, quando respondem bem ao processo de avaliação e reabilitação”.

APOIO

O Programa Brasileiro de Conservação do Gavião-real é uma iniciativa do Inpa, em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), entre outras instituições.

As pesquisas desenvolvidas sobre a espécie são relacionadas à biologia, educação ambiental, oficina com as comunidades e na reabilitação de animais feridos e contam com o apoio da FAPEAM.

MONUMENTO NA VILA AMAZONIA

O gavião-real habita as florestas da Amazônia, da Mata Atlântica e os enclaves florestais do Cerrado, e mantêm seus ninhos em lugares que vêm sendo ocupados por comunidades humanas. Diversas possibilidades prejudiciais para ambos podem advir deste contato, por isso, trabalhamos em prol da sensibilização ambiental por meio de algumas atividades de educação ambiental destas populações visando a manutenção dos ninhos de gavião-real e consequente conservação da espécie na natureza.

As ações envolvem atividades lúdicas com crianças durante as Mostras de Ciências, visita as escolas de comunidades da área de atuação do Programa, Festa do Gavião-real no Assentamento Gleba Vila Amazônia, Parintins-AM e a realização de concurso para nomear indivíduos de gavião-real marcados com dispositivos de identificação e monitoramento.

As Mostras de Ciências tem como principal foco, a divulgação e a popularização da Ciência nas comunidades rurais onde há ninhos de gavião-real sendo monitorados. O formato do evento consiste em um dia de atividades onde um tema é trabalhado, direcionado as palestras e as oficinas para comunitários, produtores rurais, estudantes e interessados.

Os estudantes devem montar trabalhos em grupos e apresentá-los durante a Feira de Ciências. As crianças participam de atividades lúdicas, com atividades de desenho, de pintura e de jogos relacionados a fauna, a flora e ao gavião-real. As comunidades próximas são convidadas a participar do evento.

Os primeiros eventos (2004, 2005, 2006 e 2007) foram coordenados pela equipe do Programa, mas sempre com a atuação direta dos membros das comunidades na execução e na participação durante o evento. As edições seguintes (2008, 2009 e 2010) foram coordenadas pelas próprias comunidades e escolas interessadas em abrigar o evento.

A MAIS PREDADORA

De acordo com informações do Portal Viva Terra, o Gavião Real ou Harpia é a mais poderosa predadora entre as aves de rapina do mundo, o gavião-real ou harpia é a maior ave de rapina da América do Sul, possuindo porte majestoso e imponente. Pode medir de 50 a 90 cm de altura, cerca de 105 cm de comprimento e possui 2 m de envergadura. O macho pode pesar de 4 a 4,5 Kg e a fêmea de 6 a 9 Kg. Suas asas são largas e redondas, as pernas curtas e grossas e os dedos extremamente fortes com enormes garras. A cabeça é cinza, o papo e a nuca negros.

O peito, a barriga e a parte de dentro das asas, brancas. Seus olhos são pequenos. Possui um longo topete, uma crista com duas penas maiores e a cauda com três faixas cinzentas. É a ave de rapina mais forte do Brasil, capaz de levantar um carneiro do chão. A realeza das harpias não se deve apenas à sua aparência imponente – asas, cauda e um colar em torno do pescoço negro, peito branco e cabeça ornada por um cocar cinza e macio, do qual despontam dois conjuntos de penas maiores, semelhantes a “chifres” -, mas principalmente à sua incrível força e ferocidade.

Uma harpia adulta carrega um animal de mais de 10 quilos. Suas garras são tão poderosas (a unha chega a medir 7 centímetros) e sua força tão grande, que ela consegue, em pleno vôo, arrancar uma preguiça da árvore. Pode viver até 40 anos.

O seu habitat são as Florestas tropicais altas e densas. Na Mata Atlântica a população está em declínio, mas sua maior ocorrência é na Amazônia.

Do México a Bolívia, Argentina e Brasil. Hoje ainda sobrevive em alguns estados do Nordeste, em Mato Grosso, Goiás, Espírito Santo, Rio de Janeiro, e nos estados do Sul.

REPRODUÇÃO E HABITOS

Reproduzem-se de junho a novembro. O ninho, construído pelo casal em uma das árvores mais altas da área, é perene e refeito a cada período de reprodução, que normalmente ocorre de dois em dois anos. Nidificam em árvores altas e de troncos fortes, seu ninho consiste em uma pilha de galhos, a fêmea coloca dois ovos. A incubação dura em torno de 56 a 58 dias, sobrevivendo apenas um filhote, que é alimentado pelos pais até sair do ninho entre 6 e 8 meses. Chega a maturidade somente no quarto ano de vida.

Tem um assobio longo e estridente. Voa alternando rápidas batidas de asas com planeio. Quando ataca uma presa, torna-se veloz e possante, podendo carregar para uma árvore, mamíferos de médio porte. Avessas a mudanças de hábitat, as harpias costumam se estabelecer em um território de caça de cerca de 100 quilômetros quadrados de extensão.

Essa grande ave se alimenta de animais de médio porte como preguiças, macacos, filhotes de veado e caititu, aves como araras e serpentes. A harpia está no topo da cadeia alimentar (não tem outros predadores a não ser o homem).

Ameaçada de extinção. Atualmente encontra-se praticamente restrita à Floresta Amazônica, devido à caça indiscriminada pelo homem, destruição do habitat e o tráfico de animais.

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