Mercado Municipal Adolpho Lisboa é entregue à população no aniversário de Manaus

(Fotos: Tácio Melo)

Após oito anos fechado para obras de restauro, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa reabre suas portas nas primeiras horas do aniversário de Manaus.

O mercado será entregue pela Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal do Centro (Semc), em meio a uma festa marcada para a noite desta quarta-feira, 23, e organizada pela Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult).

A entrega do Mercadão totalmente restaurado é um presente que a cidade vai receber em seu 344º aniversário e foi um compromisso firmado pela administração do prefeito Arthur Virgílio Neto com os manauaras no momento em que tomou posse do cargo no dia 1º de janeiro deste ano.

Para comemorar a entrega do mercado e o aniversário da cidade será montado um palco do lado de fora do mercadão com diversas atrações, em programação marcada para começar às 20h.

Os 182 permissionários iniciaram o retorno aos boxes na última sexta-feira, 18. Eles começaram a organizar seus produtos dentro dos boxes e já passam a comercializá-los na próxima quinta-feira, 24.

São 64 boxes no Pavilhão Central, 20 no do Peixe, 22 no da Carne, 24 no das Hortifruti, duas praças de alimentação cada uma com 11 boxes, 19 no Pavilhão Frontal, duas bombonieres, dois restaurantes, além dos Pavilhões Pará e Amazonas.

O mercado tem mais de 5 mil metros quadrados e quando o Prefeito Arthur Neto assumiu as obras estavam paradas. Em março, a Prefeitura obteve liberação para retomar a obra e, oito meses depois está devolvendo o mercado à população. Mais de 170 profissionais entre restauradores, engenheiros, pedreiros e outros estiveram envolvidos na obra.

Aberto ao público

De acordo com o secretário Municipal do Centro, Rafael Assayag, o mercado passa a funcionar efetivamente já nas primeiras horas da manhã do dia 24, quando a cidade completa 344 anos. “O mercado é um presente para a população e representa a história dessa cidade. É um compromisso do prefeito e de sua administração e que nos orgulhamos de devolver à população já funcionando nas primeiras horas após sua reabertura”, ressaltou.

Quem for conferir o novo Mercadão vai poder comprar pescado fresco no Pavilhão do Peixe, carnes no Pavilhão da Carne e uma variedade de frutas e verduras no Pavilhão de Hortifruti. Além disso, ainda há duas praças de alimentação padronizadas e totalmente equipadas para cumprir regras de limpeza e higiene.

A visita ao mercado também será um reencontro com a história de Manaus dos tempos áureos da borracha. O Mercadão guarda histórias que como o sino da criolina, o bombardeio de 1910 e outras curiosidades de uma arquitetura que é símbolo e de Manaus.

Qualificação

O trabalho da Semc se deu também na realocação das bancas e boxes dos permissionários dentro do mercado. Rafael lembra que os permissionários participaram de todo o processo. Para chegar a uma disposição definitiva das bancas e boxes foram realizadas reuniões setorizadas com os permissionários de cada pavilhão do Mercado Municipal. As reuniões tinham como objetivo mostrar a eles o novo layout de distribuição das bancas e decidir onde cada um seria realocado, respeitando o posicionamento histórico e o bom senso, segundo Rafael Assayag.

“Hoje o Adolpho Lisboa está com todas as bancas redistribuídas de maneira unânime, com a aprovação total dos permissionários. Aqueles que não conseguiram manter sua localização compreenderam o porquê de não poder manter os antigos lugares”, explicou Rafael.

Restauro

O projeto de restauro do Mercado Municipal Adolpho Lisboa buscou recuperar o máximo possível da arquitetura histórica do prédio original, mas modernizando alguns aspectos importantes, como a questão sanitária, com bancas diferentes e com outros revestimentos.

Segundo o arquiteto, Roger Abrahim, os novos elementos não poderão ser encostados nas paredes do prédio antigo de maneira fixa e serão mantidos afastados, segundo recomendação da Carta de Veneza.

“Restauramos o prédio antigo para honrar a memória dos que já foram, mas usamos elementos modernos, quando necessários, em honra às gerações futuras”, resumiu o arquiteto.

Além do trabalho de restauração do Mercadão, a Prefeitura investiu também na valorização e qualificação dos permissionários que veem sua história se misturar com a história do mercado.

Desde setembro os permissionários deixaram a feira improvisada montada no entorno do mercado e se comprometeram a participar dos cursos de qualificação profissional ofertados sob a da Semc em parceria com Secretaria Municipal de Feiras, Mercados, Produção e Abastecimento (Sempab), Escola do Serviço Público Municipal (ESPI), Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam) e Secretaria de Estado de Educação (Seduc).

Os cursos foram oferecidos para melhor atender os clientes e cuidar do mercado que foi recuperado e deve ser preservado. Além disso, os permissionários participaram de cursos de higienização e de línguas, buscando o aperfeiçoamento.

O Mercadão será entregue com uma estação de tratamento de esgoto que vai lançar no Rio Negro água tratada com 95% de pureza. Também está equipado com câmaras que vai canalizar o gás metano para ser usado nos fogões de parte dos pavilhões. Haverá ainda, uma compactadora de lixo.

História do Mercadão – Mercado Adolpho Lisboa: Arquitetura, História e Cultura na Amazônia

Um dos ícones da chamada “arquitetura do ferro” no Brasil, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa é um dos símbolos da cidade de Manaus e constitui uma relíquia dos tempos áureos da época da borracha. Juntamente com o lendário Teatro Amazonas e a elegante Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, é um dos edifícios mais importantes do nosso acervo patrimonial histórico, graças à sua bela arquitetura fortemente influenciada pelo estilo “Art Nouveau” e ao inestimável valor cultural que representa para o povo manauara.

Sua construção remonta ao final do século XIX. Construído pela firma “Backus&Brisbin”, sediada em Belém, as obras foram iniciadas em dois de agosto de 1882, no tradicional “Bairro dos Remédios” e o contrato previa apenas a construção de um mercado de ferro e alvenaria de pedra e tijolo, nos moldes do mercado central de Paris, o famoso “Les Halles”, cujo sistema de dispor pavilhões que se interligavam, revelou-se atraente para cidades do mundo inteiro, que podiam encomendar a quantidade de pavilhões necessários e, por se tratarem de estruturas moduladas em um sentido, podiam ter seus comprimentos variáveis, de acordo com as necessidades de cada lugar. O mercado de Paris viria a inspirar muitos outros – na França e mundo afora – construídos a partir do final do século XIX. A generosidade dos vãos, a luminosidade e ventilação do espaço, marcados por cobertura em ferro, lanternins e venezianas, propiciavam a comercialização dos mais variados gêneros alimentícios, especialmente ideais para lugares quentes e úmidos como o Brasil. Portanto, o pavilhão central do mercado, inaugurado em 15 de julho de 1883, pelo Presidente da Província, José Paranaguá, obedecia aos modernos padrões da arquitetura em ferro, que se alastrava pelo mundo afora, desde que a revolução industrial tivera início. Era na realidade um grande galpão, em duas águas, sem grandes pretensões estéticas, calçado em lajes de pedra calcária de Lioz, procedentes de Portugal. As colunas de sustentação da estrutura possuem gravadas em seus fustes o nome: “FRANCIS MORTON, ENGINEERS, LIVERPOOL”, não deixando a menor dúvida em relação a sua procedência: Inglaterra, país que possuía a técnica e matéria-prima em abundância para a nova tecnologia que aos poucos se tornaria bastante difundida. A fachada voltada para o Rio Negro era mais cuidada, possuindo duas edificações em alvenaria de tijolos, além da entrada, executada no mesmo material.

Em 1890, foram construídos dois pavilhões laterais, iguais. Na realidade eram galpões abertos, com estrutura de coberta em madeira e cobertos de telhas de zinco. Com o crescimento da cidade, o edifício sofreu uma ampliação e um cuidado maior com a fachada, voltada para a Rua dos Barés, durante a administração do Prefeito Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, em 1906, tendo os dois pavilhões laterais sido substituídos por dois iguais, em ferro fundido, cujas fachadas apresentam frontões curvos acompanhando as formas dos arcos de coberta, que por sua vez ostentam delicados ornatos em ferro e vidros coloridos, ao gosto do “Art Nouveau”, muito em voga neste período. Estes dois pavilhões são provenientes da famosa firma de fundição escocesa “WALTER MACFARLANE” e destinam-se para a venda de peixe (à direita) e carne (à esquerda), respectivamente. A fachada da Rua dos Barés receberia um tratamento mais rebuscado, em estilo eclético, de alvenaria de tijolos e é atribuída ao engenheiro Felinto Santoro. Em 1909, é edificado o “Pavilhão das Tartarugas”, localizado no centro do pátio sul e destinado à comercialização de quelônios, iguaria tradicional da culinária amazônica. Totalmente fechado com chapas de ferro, venezianas do mesmo material e vidro, possui coberta, com chapas onduladas, composta de quatro águas que se desdobram nas entradas, formando um pequeno frontão, decorado com ferro fundido e vidro colorido. Este pavilhão, assim como os outros dois, também é de procedência da mesma firma escocesa. Já no triênio 1911-1913, durante a administração do Prefeito Jorge de Moraes, surgem os dois pequenos pavilhões octogonais, montados próximos às extremidades do Pavilhão das tartarugas, homenageados com os nomes dos Estados do Amazonas e Pará. Destinaram-se, originalmente, à função de“café & botequim” e são igualmente procedentes da mesma empresa “Walter Macfarlane, de Glasgow”. Apesar de não apresentarem nenhuma inscrição, a comparação com os catálogos da firma não deixam a menor dúvida quanto à sua origem. Neste mesmo período, foi instalado o gradil de ferro fundido, oriundo da Praça D. Pedro II, sobre base em alvenaria de pedra e dois portões, fechando a parte sul (com fachada voltada para o Rio Negro) e construídas duas escadas de alvenaria em Lioznas laterais do edifício e infelizmente desaparecidas anos depois.

Ao longo dos anos, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa serviu a toda a sociedade, transformando-se em um símbolo da arquitetura do período áureo da economia da borracha e uma relíquia, para todo o Brasil, da “arquitetura do ferro”, tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em nível nacional – um reconhecimento pelo seu inestimável valor arquitetônico e cultural. A lenda de que é uma cópia do mercado de Paris, não possui fundamento, uma vez que não obedeceu a um projeto, mas na realidade, fora construído aos poucos, em trinta anos, dentro de um mesmo período histórico: A Era da Borracha (1880 –1913), mas que certamente ajudou a fortalecê-lo como um mito. Para os manauaras, o mercado é até hoje um local de reconhecimento de nossa própria cultura, onde podemos encontrar desde os produtos mais típicos da região, tais como as ervas medicinais e temperos nativos oriundos do interior do Estado, até os saborosos peixes de água doce e o artesanato indígena, tão apreciados não apenas pelos visitantes brasileiros, mas do mundo todo, que buscam saber um pouco mais sobre a cultura e os costumes do povo amazônico. Sua primeira restauração técnica e científica teve início no ano de 2006, na gestão do Prefeito Serafim Corrêa e agora, sete anos depois, a administração Arthur Virgílio Neto orgulha-se de devolver ao povo amazonense um dos seus principais cartões-postais.

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