Presidente Figueiredo devastada

Atividades turísticas também foram prejudicadas no municípi
Atividades turísticas também foram prejudicadas no municípi
Atividades turísticas também foram prejudicadas no município

PRESIDENTE FIGUEIREDO, AM – A longa estiagem que atinge o Município de Presidente Figueiredo (a 107 quilômetros de Manaus) afetou toda a cadeia de economia baseada na produção agrícola e no turismo.

Sem água, as culturas de hortaliças, frutas e macaxeira despencaram, assim como a criação de galinha caipira e gado. “Segundo dados da Secretaria de Produção há culturas que o agricultor perdeu até 83% da safra”, conta o agente da Defesa Civil Israel Vieira.

As comunidades agrícolas dos ramais Boa Esperança, no km 120 da BR-174, Jardim Floresta, no km 126, e Micade 1 e 2, no km 145, estão sem água desde novembro, quando os poços e igarapés secaram. Muitos agricultores foram morar com familiares na sede do município e deixaram para trás tudo o que tinham. Quem ficou vive da aposentadoria dos parentes mais velhos, de produções esporádicas de galinhas ou mesmo da caça.

Na Associação dos Produtores da Comunidade Boa União, que fica no ramal Rumo Certo, no km 169 da BR-174, a redução na produção agrícola causou a quebra de diversos pequenos negócios que giravam em torno dos agricultores, sobretudo pequenos comerciantes.

“Quem ainda consegue colher alguma coisa não tem como trazer para a comunidade. Para escoar a produção eles têm de andar, pois o lago secou”, relata a comerciante Raimunda Oliveira, pioneira da Boa União.

“Como é que vão conseguir carregar tudo nas costas?”, pergunta o comerciante Marcelo da Costa, que tem uma taberna na comunidade e vendia quase que exclusivamente seus produtos para os agricultores da cacaia, como são conhecidas as ilhas formadas no meio do paliteiro de árvores mortas pela subida das águas do rio Uatumã na formação do lago da Usina Hidrelétrica de Balbina.

Na Boa Esperança, o produtor rural William Marcelo, há 21 anos na região, diz que a situação chegou ao ponto de não ter absolutamente nada para vender e o que lhe restou de “gordura” está acabando rapidamente.

“Minhas plantações de hortaliças, pepino, pimenta, brocólis, cheiro-verde, tudo morreu com a falta de água. Meus dois tanques de peixe, onde crio tambaquis, estão no limite e só me restam uns 200 peixes. Quando acabar vou ficar sem nada”, lamenta William.

Na propriedade dele, além da agricultura, ele explorava o turismo ecológico na famosa Lagoa Azul, que desde dezembro secou completamente. “As pessoas vêm aqui, pedem para visitar, mas eu não deixo. Como é que vou mostrar para elas uma terra seca? Vão me acusar de propaganda enganosa, vão sair com uma imagem ruim, mas não posso fazer nada, é a natureza”, completa.

Pesca comprometida

A pesca esportiva e a comercial vive o seu pior momento na história de Presidente Figueiredo, estando ambas praticamente paralisadas. Funcionário da pousada do Jeff, que está localizada no meio do lago de Balbina, Fabio de Lima, 36, conta que no auge da temporada ele recebe dois a três grupos de pescadores de tucunaré por semana, uma atividade que envolve ainda profissionais como piloteiros de lancha, cozinheiros, camareiras, governantas e equipe administrativa e de apoio na sede do município. “Negócio ficou feio, nunca tinha visto isso em 15 anos trabalhando no lago”, garante Fabio.

“A dificuldade está tão grande, que muitos moradores foram embora deixando todos os pertences, pois sabe que até os ladrões foram embora nessa crise brava”, brinca, revelando que nesta temporada de seca, que paralisou tudo a partir de novembro, a pousada recebeu apenas três grupos.

Quem pratica a pesca de tucunaré para vender em Presidente Figueiredo e na Vila de Balbina também está com a atividade prejudicada e sem perspetivas de melhora.

Investimento entregue às aranhas

O casal formado pelos agricultores Raimunda Oliveira, 61, e João Oliveira de Souza, 70, o “Baiano do Facão”, investiu todas as economias na construção de um bom restaurante na comunidade Boa União, no fim do ramal Rumo Certo, no km 169 da BR-174, mas desde julho o estabelecimento está entregue às aranhas e moscas.

“Foi muito dinheiro investido aqui, nossas economias de anos”, lamenta Baiano, destacando o tamanho do “empreendimento”: “São 45 metros x 24 metros, é um belo espaço, ficava cheio todo dia. Vendíamos 70 pratos de comida a cada almoço, desde julho que não vendemos nada”.

Raimunda explica que a seca no lago de Balbina expulsou os turistas que frequentavam o local para a prática da pesca esportiva do tucunaré. A comunidade é referência nessa atividade, pois é lá que acontece todos os anos a 2ª Etapa do Circuito Amazonense de Pesca Esportiva, quando, ao menos, 70 pescadores rumavam para o rio Uatumã partindo da Boa União. “Isso movimentava pousadas, o comércio local, os agricultores, cozinheiras, piloteiros de lanchas, mas hoje não tem nada”, lamenta Raimunda.

Sem ter para quem vender seus pratos, o casal dispensou as três cozinheiras, fechou o restaurante e foi viver da aposentadoria num pequeno sítio. Renda extra, conta Baiano do Facão, só quando mata uma cabeça de gado para vender aos poucos moradores da comunidade e amigos das redondezas. “Agora é esperar pela chegada da água novamente”, resigna-se o casal.

Queimadas mais que dobraram

Um dos piores sub-produtos da longa estiagem que atinge o Município de Presidente Figueiredo (a 107 quilômetros de Manaus) foi o aumento das queimadas desde novembro. “Infelizmente quase todas foram causadas pelos próprios moradores, mas atuamos com nossa brigada e em parceria com o Corpo de Bombeiros para conter o fogo e, eventualmente, autuar os que foram reincidentes”, revelou o Secretário Municipal de Defesa Civil, Jeováh Assunção.

O fim das queimadas, contudo, só veio com as chuvas da semana passada, mas a paisagem desolada da mata queimada está por todas as partes de Presidente Figueiredo, nos ramais, nas margens da BR-174 (Manaus-Boa Vista) e na AM-240, a estrada de Balbina.

O produtor rural William Marcelo foi um dos que sofreram com as queimadas que se aproximaram perigosamente da casa da família dele, no ramal Boa Esperança, no km 120 da BR-174. “O fogo vem devagar, sem a gente perceber. Quando vê, a mata já está queimando perto do que é nosso”, conta.

Marcela da Conceição, moradora da comunidade Jardim Paraíso, lembrou que a fumaça das queimadas afetou muito seus filhos pequenos, que conviveram com problemas respiratórios e tiveram que ser atendidos mais de uma vez na Unidade Básica de Saúde da comunidade.

De acordo com a Defesa Civil, um balanço do problema das queimadas em Figueiredo e Barcelos, outro município que está em Estado de Emergência, será apresentado no início de março.

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