O dia em que revisitei o passado

CRÔNICA

 

Rosangela Portela

Um encontro de almas ou de sentimentos. Revisitar o passado é vivê-lo novamente. 

Sabe aquele dia em que, do nada, você olha para trás e começa a revisitar o passado? Pois é. Está acontecendo agora. Entro no quarto. O espelho! Cúmplice de momentos marcantes na alma. Hesito em olhá-lo. Penso na teia do tempo que construiu a minha vida, fecho os olhos e minha infância surge como em um filme.  E, com um meio olhar, coloco-me à frente desse espelho e inicio o meu martírio, ou será a minha redenção? Não tardarei para responder.

Com o olhar fito, o que a princípio se revela é o som das cantigas nas brincadeiras de roda, seguido, de forma retorcida, das imagens de minhas colegas de infância. Tento reconhecê-las, mas o tempo já deixou suas marcas.

Recuo e ouço a voz do meu pai narrando que conheceu minha mãe em uma das festas juninas, aquelas em que fogueiras em contraste com a lua, colorida com fogos de artifício, proporcionam um brilho especial à noite, enchendo de magia os corações enamorados. Nesse clima, conceberam 09 filhos, assim selando uma história de amor e sacrifícios.

Mergulhando em outra roda de conversa, ouvi que, em um ambiente marcado pela industrialização e ecos do “milagre brasileiro”, eu nasci, sob os roncos dos tanques de guerra, símbolo da ditadura; um átomo apenas naquela tempestade de moléculas armadas, direcionadas a controlar o pensamento e a linguagem de todos. Agora sei por que me interesso por análise do discurso!

E rezando a cartilha Caminho Suave adentrei o mundo das letras, o que representou para mim um convite ao permitido. Sempre me privei dos sonhos na vida real, realizando-os por meio de composições, embora o mergulho imaginário tenha se acostumado às limitações impostas pelo meio. Ainda assim, podia navegar sem rumo…

Fiz umas divagações para ver se adiava o meu confronto com certas situações do passado, em uma espécie de fuga da realidade, mas o momento chegou. Retorno ao espelho. “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar”. Tempos bons. A preocupação era com que coleguinha iria brincar.

As imagens me mostravam uma mescla de vida urbana e rural que compôs o meu ambiente infantil. Se, de um lado, as brincadeiras de lencinho, cemitério, pedrinha, barbandeira (assim falávamos), boneca de papel me proporcionavam satisfação; de outro lado, as lendas do boto, da cobra-grande, da mula-sem-cabeça povoavam o meu imaginário nas viagens ao interior do Pará, Monte Alegre. Lá, sempre que andávamos de canoa, tínhamos que jogar farinha para os botos se afastarem. Cresci assimilando essas crendices.

Começo a sorrir. Um episódio marcante pôs-se à minha frente. Uma das minhas missões nessa cidadezinha era buscar gelo na casa de um tio que morava ao final de uma serra, povoada de mitos, cujos personagens eram “a alma do meio-dia de canto encantador”, “a porca que virava gente”, “o caixão que flutuava”, “o Nego Tó”, entre outros.

A serra tinha um caminho ladrilhado não pelos golpes de enxada, mas pelo andar humano. Era cercada de mato. Tinha o aspecto sombrio. Certo dia, ao descer a serra, eu e o meu irmão carregando o gelo materializamos a figura do Nego Tó em um senhor que nos seguia. Na mesma hora, larguei a sacola e me pus a correr. Aquele corpo magrinho fugia em um ritmo tão acelerado que não corria, flutuava entre os matos. Meu irmão, coitado, além de correr para se salvar, tinha que cuidar do gelo que chegou ao seu destino coberto de areia.

Com a fisionomia modificada, cor amarelada e cabelo “em pé”, mal conseguíamos revelar a estranha visão que nos perseguia na serra gritando: “pega eles, pega eles!” Um grito se ecoou no momento em que, pensando estar a salvos, o estranho homem aparece na nossa frente. “É o senhor que vende sabão” – disse a minha avó. “E vocês estragaram o gelo por causa dele? Voltem e vão buscar outra pedra…!”

Ninguém podia imaginar o que se passava no meu interior. Por um momento, achei que havia desfalecido. Mas, esse episódio serviu para desmitificar alguns mitos. Aos poucos, percebi que a porca não virava gente, mas sim protegia a sua prole correndo atrás das pessoas; a “alma do meio-dia” era uma mulher que cantava ao lavar a roupa na cacimba; o “Nego Tó” era um ladrão como esses com os quais nos deparamos no dia a dia; agora, já o caixão que flutua, ah! Esse eu não quis pagar pra ver não. É demais pra mim. Deixa pra lá.

Um paradoxo, no entanto, se instala. Apesar de crescer rodeada de amigos e mimos, meus melhores momentos eram quando eu estava sozinha, o que me dá prazer até hoje. Talvez essa opção me tenha proporcionado um diálogo amigável com as letras. Meu sonho: ser professora.

De corpo franzino e olhar atento, os pés fugindo dos sapatos de minha mãe, lá vinha eu, meio que desengonçada, ministrar minha aula. “Número 1”. “Presente”. Minha brincadeira favorita. Numa mescla de tradição e modernidade, naquele tempo, eu já era contra os castigos corporais que eram impostos aos alunos. Tapete de milho e de pincha, palmatória, ficar de cara pra parede. Que crime! Mas, sobrevivi pela pátria amada. Vi na imagem aquela menina magrinha, com saia branca plissada, marchando no dia 5 de setembro. A bandeira do Brasil e o cata-vento contribuíam para o clima de brasilidade. Novos tempos ecoavam para o país.

Mas, nem só de flores vive o homem! De repente, o tempo se fecha, uma nuvem escura paira no ar. Sinto um calafrio! É a morte que quando chega sorrateiramente atua como um furacão cuja força do vento impiedosa destrói o que vem à frente.

Cubro o espelho. Não é o momento. Interrompo a visita. Tenho medo do que vou ver. Fica para uma outra hora. Fuga da realidade? Que seja. Assim, me despeço.

 

 

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