Na Amazônia políticos detêm grandes faixas de terra

políticos fazendeiros - foto internetAmazonianarede/Portalamazonia

Manaus – Pelas declarações de bens à Justiça Eleitoral, o jornalista Alceu Castilho descobriu que políticos de todas as regiões do País são donos de grandes proporções de terras na Amazônia. Três anos de pesquisa estão publicados no livro “Partido da Terra”, da editora Contexto. O autor da obra conversou com o portalamazonia.com e afirma: a floresta – inclusive a região do “arco do desmatamento”, no Pará e Mato Grosso – está entre os territórios preferidos pelos políticos.

A conquista da Amazônia sempre esteve atrelada à politicagem. Relatos históricos apontam que já havia interesse em popularizar a região desde a época do descobrimento. No governo de Getúlio Vargas (1930-1945), a colonização da floresta passou a ser vista como estratégica para os interesses nacionais. Nos anos 70, militares criaram vários slogans como: “integrar para não entregar” ou “terra sem homens para homens sem terra”.
Castilho firma que o interesse pela região não mudou. Segundo o jornalista, a propriedade de terras na região está nas mãos de poucos; de exatamente 12.992 políticos eleitos em 2008 e 2010. Considerando o último Censo de 2010, o Norte possuía aproximadamente 16 milhões de habitantes. Essa desproporção explica, de acordo com o autor os principais problemas da região, incluindo os conflitos que resultaram na morte do casal de castanheiros José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, da missionária Dorothy Stang e o massacre de Eldorado dos Carajás.

CRUZAMENTO DE DADOS

Com o cruzamento de dados, o autor do livro constatou que 21 políticos detinham 95 mil hectares de terra, distribuídos em 14 municípios do arco do desmatamento. O estado que mais possui “prefeitos e vice-prefeitos com terra” é o Mato Grosso (com 62,41% entre prefeitos, 78,72% incluindo vice-prefeitos). Curioso também, explica Castilho, que nada menos que 92 prefeitos, 207 vice-prefeitos e 8 deputados declararam, ao informar a profissão, que são agricultores, pecuaristas ou produtores agropecuários, mas não detêm um único centímetro de terra.

“Partido da Terra” traz também uma lista inédita de políticos madeireiros: são mais de 60 nomes. Quatro são do Pará, um do Amapá, um de Rondônia. Vários já foram acusados – alguns, até presos – por crimes ambientais. Dois dos três principais são paraenses.

Durante a pesquisa, feita com dados disponíveis na internet e nos sites da Justiça Federal, entre outros, Castilho percebeu que cargos mais altos implicam maior média de propriedade de terras. Vice-prefeitos têm 58 hectares por pessoa, enquanto entre os prefeitos eleitos o número salta para 209 hectares. Governadores e vices detêm 341 hectares. Os deputados estaduais são donos de 203 hectares por pessoa; entre os federais, são 296 hectares, com pico de 973 hectares por senador eleito. O número cai para 485 hectares entre os suplentes para o Senado.

ATUAÇÃO POLÍTICA

Um exemplo de atuação prática desses políticos é a votação do Código Florestal. Como disse nesta semana o deputado federal Homero Pereira (PSD-MT), “sua aprovação é necessária para o bem do País, pois não podemos desestabilizar o agronegócio, que é um dos setores mais competitivos da economia brasileira”. Pereira também é presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

Até chegar a esse ponto, a aprovação não teve o apoio apenas da “bancada ruralista”, segundo Castilho. “O PCdoB foi favorável ao novo código, relatado pelo atual ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. O PT votou contra, mas boa parte votou a favor. Alguns deputados do PCdoB votaram contra, mas todo o processo já estava deflagrado.”

Para Alceu Castilho o livro não é denunciativo, apenas “são informações coletadas para a sociedade debater sobre questões indígenas, condições de trabalho análogas à escravidão, crimes ambientais e principalmente sobre uma terra que pertence a todos nós”.

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