Em Belém, visitas guiadas revelam a beleza do Carmo

(Foto: Octávio Cardoso – DOL)

Considerada uma das relíquias da cidade de Belém, a Igreja do Carmo passa atualmente por uma grande obra de restauração. E ao contrário do que se espera, esse foi o momento escolhido para receber ainda mais visitantes.

Através de visitas guiadas por jovens monitores, o público tem a oportunidade de receber uma aula de preservação da memória histórica. Com agendamento prévio durante a semana ou nas visitas espontâneas durante o final de semana, quem já visitou, recomenda o passeio.

As visitas são uma iniciativa para que as pessoas que conhecem apenas a fachada da Igreja do Carmo percebam que estão longe de conhecer toda a riqueza de sua decoração interior, marcada principalmente pelo seu teto em abóbada de berço, muito parecido com a arquitetura barroca italiana; e o seu altar-mor pertencente a construção da segunda Igreja, que ficou de uma demolição feita em 1760, com um estilo que em nada parece com as composições de Landi, presentes em quase tudo.

A coordenação do projeto de visitações é do artista plástico Armando Sobral, conhecido por trabalhar incluindo elementos barrocos em suas pesquisas artísticas, ele chega a estar presente durante algumas visitações. “A ideia é desenvolver um trabalho de educação patrimonial, não só de importância da restauração, mas também da manutenção. E que a população ao adentrar a Igreja em obras veja nela um espaço de conhecimento, da história paraense, e entenda que está é sua própria história”, diz Armando.

O valor da história em cada canto

A pequena visitante Emilee da Rocha, de 11 anos, diz que a visita guiada é muito interessante assim. “Dá para aprender bastante. Ainda não tinha entrado aqui com ela assim [em restauro], é mais divertido. Ela é muito bonita”, afirma enquanto admira uma das pinturas dos altares laterais que são das reformas efetuadas pelos salesianos já no século 20. E enquanto ela admira, os monitores se sentem cumprindo seu papel. “A ideia é mesmo essa, ensinar as crianças a saberem valorizar sua história”, diz Felipe Nascimento, 20, estudante de Engenharia Civil.

Projeto

Os monitores responsáveis por guiar o público são dez estudantes universitários dos cursos de arquitetura e engenharia civil e mais seis jovens da comunidade ‘Beco do Carmo’, composta por moradores do bairro da Cidade Velha. Além de atuarem como guias, os jovens farão pesquisa de campo e levantamento de dados durante as obras para a criação de um memorial de restauro da igreja. O material servirá para compor o relatório técnico entregue à Arquidiocese de Belém, usado para publicações de materiais para pesquisa.

A expectativa é que cerca de 10 mil pessoas visitem as obras até o final deste ano. O passeio inclui atividades no Ateliê do Carmo. Nele são disponibilizadas maquetes, ilustrações computadorizadas, fotografias e vídeos, mostrando como as obras estão acontecendo e explicando o processo restauração. Aqueles que participam como monitores afirmam que assim também aprendem com o projeto. “Sou morador do entorno, e assim como outros vim integrar o projeto, trazendo um olhar de quem mora aqui. Estou aprendendo muito, até mesmo com os universitários, tanto de engenharia como os de arquitetura”, diz João Bosco, de 17 anos, estudante do Ensino Médio e participante da comunidade ‘Beco do Carmo’.

Para conhecer

Esculpido em madeira e coberto de dourado, decorado com imensos anjos, colunas entremeadas por cachos de uvas, flores e folhas. O altar-mor da Igreja do Carmo é decorado com folhas de acanto, volutas e cartelas, detalhes que caracterizam o período barroco. Os púlpitos, explica o artista Armando Sobral à criançada, são de um barroco rococó, lembrando os púlpitos produzidos por Aleijadinho.

Algumas imagens encontradas nas laterais remontam a época dos Carmelitas, o que inclui a imagem de Nossa Senhora do Carmo, a de Sant’ Ana e a de Santa Madalena de Pazzi, imagens entalhadas de madeira e que receberam um fino revestimento de gesso. “Aqui você acaba aprendendo diferentes partes da história. Você pode saber sobre a história dos carmelitas, sobre a participação de Landi na ornamentação, aprende do que se trata a arquitetura barroca”, afirma Armando Sobral.

Até mesmo o momento histórico da Cabanagem se mistura à história da Igreja do Carmo. Durante o movimento popular, ela chegou a ser usada como ponto estratégico pela tropa imperial. E todo o conhecimento continua lá, entranhados em cada detalhe a ser restaurado, aberto para que a população entenda que os responsáveis pela preservação de tudo isso ao longo de anos, décadas e séculos, será a própria comunidade.

Agende-se

Visitas guiadas à Igreja do Carmo. De terça a sexta, das 10h às 11h30; e das 16h às 17h30. Necessário agendamento prévio pelo telefone (91) 3255 8816. Aos sábados os monitores aguardam o público para visitações espontâneas – sem a necessidade de agendamento. Programação gratuita.

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