Círio de Nazaré também é tempo de celebrar a culinária paraense

Amazonianarede/O Globo

Belém, PA – O Círio de Nazaré é uma tradição paraense que atrai, em Belém, cerca de 2 milhões de pessoas no segundo domingo de outubro. A mobilização acontece há 220 anos e, na grande procissão, é possível ver demonstrações de fé e devoção à padroeira do Pará durante o trajeto que leva a imagem peregrina da Igreja da Sé até a Basílica Santuário. E com a chegada da procissão ao seu destino, outra festa começa: a da culinária paraense, celebrada nas mesas em todo o estado no tradicional almoço do Círio.

Assim como a ceia de Natal marca o mês de dezembro, no outubro do Círio, as famílias se reúnem em um momento de confraternização. Na mesa, um cardápio regional de dar água na boca é servido. Maniçoba, pato no tucupi e arroz paraense não podem faltar. Para sobremesa, as frutas da região, como o açaí, o cupuaçu e o bacuri, são a base de sorvetes, cremes e mousses que refrescam e adoçam o paladar.

Comerciantes faturam

As vendas de produtos regionais nas feiras e supermercados de Belém começam a aquecer a partir de setembro. O vendedor Jorge Antônio Bezerra vende patos na Feira da 25 de setembro há anos, e conta que depois da segunda quinzena do mês, aumenta a procura entre os consumidores pelo pato caipira.

“Vendo de 400 a 500 patos na época do Círio. Eles custam de R$ 30 a R$ 50 e vêm de Capanema e Bragança (nordeste do Pará)”, afirma. Apesar da demanda, o comerciante explica que as vendas já foram melhores. “Antigamente vendia mais, pois não tinha a venda nos supermercados”, avalia o vendedor.

Na barraca de João Araújo, que há 38 anos vende tucupi produzido em Santa Isabel do Pará, as vendas triplicam nesta época do ano. Ele comemora a chegada da festividade: “No Círio vendo mais de 200 litros só de tucupi, que sai a R$ 3 o litro, e ainda vendo jambu e maniçoba”, diz Araújo.

Família reunida para o almoço

Na casa da analista de projetos Nancy Fernandes, 39 anos, o almoço do Círio acontece todos os anos, reunindo filhos, netos, irmãos, sobrinhos, toda a família. “A festa era sempre na casa da minha avó, mas desde que ela faleceu, revezamos na casa dos parentes. Pelo menos na minha casa, o Círio é mais animado que o Natal”, explica Nancy.

Como na maioria dos lares, a analista revela o cardápio principal do almoço, que tem no comando das panelas a chef Aracy, matriarca dos Fernandes: “Pato no tucupi e maniçoba. Fazemos uma média de 3 a 4 patos, que trazemos de Irituia, e cerca de 6 quilos de maniçoba”, enumera Nancy. Para não passar o Círio na cozinha, ela diz que é fundamental antecipar o preparo dos pratos: “A maniçoba começa a ser feita uma semana antes, mas todas as comidas ficam prontas desde sábado (véspera do Círio)”.

De tudo um pouco, sem exageros

Diante de tantas delícias não é difícil cometer excessos. A nutricionista Mayara Negrão alerta para o alto valor calórico do almoço do Círio. “São pratos bastante calóricos, especialmente a maniçoba. Além da maniva, tem ingredientes que são salgados, defumados, embutidos, gordura animal, saturada”, alerta a nutricionista. Segundo a especialista, um prato de maniçoba tem cerca de mil calorias.

Mayara dá a dica para quem quiser provar de tudo um pouco, principalmente turistas, que não estão acostumados a consumir comidas pesadas. “O ideal é não exagerar, comer pequenas porções de cada prato. Se comer maniçoba, não comer com farinha. Do pato, comer as partes magras, pois o tucupi tem valor energético elevado, o que pode dificultar a digestão”, afirma a nutricionista.

A nutricionista acredita que o almoço do Círio seja uma questão cultural em que é inevitável comer de tudo. Mas a nutricionista diz que estas extravagâncias devem ser cometidas apenas no dia da festa. “Depois do Círio, quem está de dieta ou já tem o hábito de alimentação saudável, vai conseguir voltar mais rápido à boa forma. Tomar muitos sucos, diuréticos e saladas depois do Círio é uma alternativa”, orienta Mayara.

Pato no tucupi: receita com sabor de tradição

Iguaria indispensável à mesa em domingo de Círio, o pato no tucupi pode assustar os cozinheiros de primeira viagem pela minúcia durante o preparo. Quem revela à reportagem do G1 Pará os segredos do prato é a chef de cozinha Daniela Martins, que comanda um restaurante em Belém cuja receita, há 40 anos, é uma das estrelas do cardápio.

“O pato no tucupi é um dos campeões na preferência dos clientes, sejam turistas ou paraenses mesmo. Se o turista tem a curiosidade de saber mais sobre os sabores amazônicos, o paraense busca nesse prato um retorno às suas origens”, comenta Daniela.

A chef paraense diz que a preparação pode ser feita com um dia de antecedência. No domingo, após acompanhar a passagem da Virgem de Nazaré, basta finalizar o prato e apreciar o almoço com a família. O rendimento da receita é de quatro porções.

O primeiro passo é lavar o pato em água com limão e cachaça até tirar as impurezas da ave. Em seguida, prepare a marinada de tucupi: adicione um litro de tucupi temperado, 3 dentes de alho amassado com casca, sal a gosto, 2 folhas de alfavaca e 4 folhas de chicória, rasgando as ervas com as mãos para liberar o sabor das ervas amazônicas. Coloque o pato para descansar na marinada por cerca de 24 horas, coberto com filme plástico, na geladeira. A ave vai absorver o sabor do tucupi e dos temperos.

No dia seguinte, arrume o pato em uma assadeira, despeje parte da marinada e cubra com papel alumínio, levando ao forno pré-aquecido a 180 graus por 3 horas, virando a cada uma hora para que asse por completo. Retire o papel alumínio e devolva ao forno por meia hora para que o pato fique com a pele crocante e cor dourada.

Com a ave já assada, corte em pedaços grandes e despreze o tucupi que restar na assadeira. Ponha os pedaços em uma panela com 3 litros de tucupi temperado, acrescente o jambu cozido e deixe levantar fervura. Desligue o fogo e sirva acompanhado de arroz branco e farinha d’água.

É importante servir o pato no tucupi em louça branca ou inox. “Se for colocado em panela de barro, o tucupi reage talhando e comprometendo o sabor”, ensina a chef Daniela.

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