Rondônia tem perigo e lentidão nas BRs alagadas

Porto Velho, RO – A interrupção das estradas pela cheia sem precedentes do Madeira dificulta a rotina de quem precisa viajar na região.

Ontem, às 12h, o nível do rio chegou a 18,88 e deverá subir mais ainda nos próximos dias, em decorrência dos cinco dias de chuvas intensas que caíram sobre a cabeceira do rio Madeira, na Bolívia, na semana passada. A situação mais grave é a da BR-364 na região da velha Mutum-Paraná, onde o Madeira transbordou, cobrindo aproximadamente 14 quilômetros. A rodovia dá acesso a distritos da Capital e ao Acre. Ontem, caminhões atolaram no porto improvisado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT) para as operações da balsa que foi deslocada para dar uma alternativa ao trecho alagado. E o trânsito parou definitivamente, mas a previsão era de que à tarde, fosse reaberto, de forma parcial, como vem ocorrendo nos últimos dias, com a passagem de 20 carros por hora e mesmo assim só veículos de maior porte.

Na BR-319, o trânsito continua sendo feito em apenas uma pista, com cautela.

Ontem, moradores do distrito de Nova Dimensão mais uma vez fizeram um protesto fechando o desvio de 211 quilômetros da BR-421, que passa por União Bandeirantes, Nova Dimensão, Nova Mamoré e Guajará-Mirim, oferecendo uma alternativa para os moradores dos dois municípios, que estão isolados com o transbordamento do rio na BR-425. O protesto visava forçar a abertura de uma estrada que passa pelo Parque Estadual de Guajará-Mirim. Há duas semanas, o Departamento Estadual de Estradas e Rodagem (DER) iniciou a recuperação da estrada, mas foi barrado por uma Recomendação do Ministério Público Federal, sob alegação de que o parque faz parte de uma região de floresta formada por mais duas unidades de conservação (incluindo a Floresta Nacional do Bom Futuro e Unidade de Conservação de Rio Pardo) mais a Terra Indígena Karipuna. A região que abrange as quatro unidades está sob uma liminar na Justiça que proíbe qualquer atividade.

Moradores aguardam defesa civil

Na parte antiga de Jacy-Paraná, a maior parte das casas está alagada. Os moradores que ainda resistem aguardam ajuda da Defesa Civil para se retirar e monitoram constantemente o rio Jacy-Paraná, que a cada dia fica mais alto. “A situação, que já era ruim, ficou pior”, diz a dona de casa Regina Pereira da Silva, que mora no local com dois filhos, de nove e seis anos, e o marido. Os poços já estavam contaminados com a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, que aumentou o nível do lençol freático. “A água já está retornando pelo encanamento do banheiro. Não temos mais condições de viver aqui”, acrescenta.

A auxiliar de serviços da unidade de saúde de Jacy Dileuza Jesus Chaves, 45 anos, afirma que já é grande o número de pessoas com diarreia, vômito e dor de barriga. “Eu amanheci mal hoje e com a pressão alta, por causa da preocupação de ter que sair de casa”. Natural de Fortaleza do Abunã, Maria Izabel dos Reis, 57 anos, há 37 vive em Jacy. Ela mora em uma região mais alta e ontem lavava roupas em um jirau na margem do rio. No local, vários barcos trabalham no transporte de um grupo de moradores que vivem em uma região mais alta e estão ilhados no meio do rio. Equipes da Secretaria Municipal de Saúde (Semusa) ajudam no transporte destes moradores – a maioria, pescador e agricultor – e também fazem o abastecimento de alimentos, água potável e medicamentos.

As alagações revoltam os moradores, que enfrentam as mudanças trazidas para a pequena vila onde a população se multiplicou em tempo recorde. Marlene Amorim da Silva, que nasceu e se criou em Jacy, reclama: “As usinas não vão deixar nada para nós. Os empregos nas obras são passageiros. A prostituição e o uso de drogas aumentaram muto. Antes a gente tinha praia para se divertir, hoje não tem mais nada. As mulheres não podem nem sair na rua, com medo de serem estupradas”, afirma.

Guincho atravessa carros pequenos

A reportagem do Diário esteve ontem no distrito do Jacy-Paraná, a 100 quilômetros de Porto Velho, onde encontrou uma comunidade assustada com a força da água, que já toma uma boa parte da área urbana, atingindo a região mais baixa, onde vive a população mais antiga do lugar. Os problemas começam na BR-364, nas proximidades da ponte que atravessa o rio Jacy. Em um trecho de aproximadamente um quilômetro, só passam veículos grandes, mesmo assim de forma controlada. Dois funcionários de uma firma terceirizada pelo DNIT fazem o controle do tráfego. A força da água já formou crateras na pista e o trânsito é cauteloso. Caminhões sobre balsas transportam pedras pelo rio, e jogam o material nas margens da estrada para tentar conter a força da água em cima da estrada.

Ontem pela manhã, uma empresa particular de guincho fazia o transporte de veículos pequenos, cobrando R$ 40 para a passagem de carros de passeio, R$ 25 para táxi e R$ 10 para motos. Motorista de um dos caminhões, Genildo Viana conta que há um mês está trabalhando nas estradas alagadas. O serviço é cansativo, mas vale a pena. Ele trabalha desde as primeiras horas da manhã e vai até as 24 horas, ou “até o corpo aguentar”. “Algumas pessoas reclamam do preço e alegam que não poderíamos fazer o transporte, mas só estamos trabalhando com guincho, que é a nossa função, e se não fosse a gente, a situação iria ficar pior”, alega. Ontem, oito guinchos atuavam no local, sendo que dois, da Santo Antônio Energia, não cobravam pela travessia.

Fonte: Diário da Amazônia

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