Os doidos de Manaus

Almir Carlos*

Nossos queridos doidos na Manaus de nossa infância – Malucos belezas !

Nas décadas de 1960/1970, Manaus ainda era uma cidade pacata, tranquila, brejeira e hospitaleira, no que pese a Implantação do Modelo Zona Franca de Manaus, que aos moldes do Oeste americano, provocou uma verdadeira “Corrida do Ouro” para nossa capital. Figuras excêntricas e inusitadas as quais abordei em outra crônica, se misturavam aos doidos que perambulavam pelas ruas, cada qual com suas idiossincrasias…seus “modus vivendis”. Abordarei aqueles que entendo como os principais, os mais conhecidos da população que não passava de 300.000 habitantes, que se respeitavam, que se conheciam, que se cumprimentavam…

Carmem Doida: Morena, alta e magra, morava pelas imediações do prédio da antiga Prefeitura de Manaus, acho que na Frei José do Inocentes. Vivia de fazer carretos para as senhoras que compravam no Mercado Adolpho Lisboa. Passava o dia levando as compras das freguesas e arrecadava uma quantia razoável, que levava para suas colegas do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. Tudo o que arrecadava ela dividia com as outras internas.

Andava pelas ruas e dançava sozinha ao som de músicas imaginárias, não mexia com ninguém, nem era violenta, apenas respondia com palavrões quando incitada pelas chacotas dos moleques: “ Doida é tua mãe seu filho da puta, vagabundo”! Outra coisa: Fosse qualquer pessoa andando na sua frente e coçasse o braço ou a perna, ele descarregava impropérios…Não se sabe o porquê de ela ficar tão ofendida com tal gesto.

Carmem Doida dizia que era doida, mas tinha juízo. Eu a vi pela primeira vez, passando em frente ao Colégio Dom Bosco, onde eu fazia o ginásio. Os colegas mexendo com ela, ela respondendo com palavrões e andando rápido em direção à Rua da Instalação…Padre Humberto, nosso Conselheiro, na volta da merenda nos deu um pito de quase 20 minutos por estarmos dando mal exemplo, mexendo com uma pessoa doente…

Carmem Doida gostava de ganhar presentes e adorava o Natal. Ela aniversariava dia 18 de abril e nesse dia ia às casas de conhecidos “cobrar” seus presentes, assim como, usava um caderno e um lápis com borracha na ponta, no qual escrevia uma cartinha para o Papai Noel pedindo seu presente e sempre era atendida por uma moradora que sentia pena dela, apesar de não entender nada do que ela escrevia(?): apenas riscos e rabiscos…

Um dia Carmem Doida sumiu. Era o ano de 1974. Sumiu e não deixou pistas, até ser descoberta jogada numa cama de uma casa na Rua Frei José dos Inocentes, paralítica! Sim tinha ficado paralítica em consequência da brutalidade de um guarda que vendo-a entrar num ônibus pela porta de trás, mandou-a sair…como ela não o atendeu, ele a empurrou com o ônibus em movimento e dizendo: _ Sai daqui, lugar de doido é no hospício!Caiu, bateu a cabeça e o joelho. Chegou em casa e não disse nada. Passados alguns dias, não conseguiu mais andar, foi levada ao Médico que detectou não ter mais jeito e desde então não pode mais sair de casa, ficara paralítica…Apenas atendera ao pedido de uma senhora para levar suas compras e ela, Carmem Doida, sempre entrava pela porta de trás; os motoristas já a conheciam e ela nunca pagara passagem…pagou caro pela atitude animalesca de uma “autoridade”, a serviço do povo!

Bombalá: Na realidade, o Bombalá, tinha Síndrome de Dow. De família tradicional, morava na Avenida Joaquim Nabuco, próximo à Praça da Polícia. Usava sempre uma calça que nós chamávamos de “pega-marreca”. Dizem que chegou a estudar música. O certo é que não perdia uma apresentação da Banda de Música da Polícia Militar, fosse no Coreto, em desfiles de Formatura ou nas Paradas Militares de 7 de setembro. Segurando um pedaço de pau que fazia de batuta, lá ia ele a frente do Pelotão, “regendo” garbosamente os músicos que já não se incomodavam com a presença infalível da figura inusitada do “Regente”.

Quando eu fazia o Curso Científico no Colégio Estadual do Amazonas, nosso querido Ginásio, assisti a muitas “apresentações” desse que sem sombra de dúvidas, se tornou uma atração a parte nos desfiles da tão querida, admirada e famosa Banda da Polícia Militar do Estado do Amazonas…

Podia-se ouvir saindo da boca do “Maestro”, (e numa cadência ritmada), que ele cantava com todo o orgulho, de cabeça erguida e dando uma piscadela para o Diniz lá na porta da Orquídeas Modas: _ “Toma limonada, prá cagar de madrugada…toma limonada, prá cagar de madrugada…

Tom Mix: Morava ali na Rua Rui Barbosa, próximo ao Colégio Estadual. Figura excêntrica: alto, com calça jeans, camisa xadrez e cartucheiras com revólveres de espoleta e chapéu de couro cor de areia, o Tom Mix passava nas ruas e cumprimentava as donzelas tirando o chapéu. Frequentador assíduo dos cinemas Polytheama e Guarany quando exibiam filmes de Bang-Bang, circulava com altivez como se fosse o próprio mocinho do filme.

Certa vez estávamos Eu, Anchieta e o Júlio no Bar do Malaquias, nas esquinas da Rui Barbosa/Henrique Martins, escondidos por trás das portas tomando uma cachaça, diz-que para acabar com o nosso nervosismo pois iríamos fazer uma prova de Matemática com o Professor Lulu, quando não mais que de repente aparece a figura do Cowboy que nada falou, apenas fez um gesto com o braço nos mandando sair e apontando para o Ginásio. Eu e o Anchieta, já o conhecíamos mas o Júlio não, pois era novato no Ginásio e saiu em desabalada carreira pela Henrique Martins, sumindo…Só o vimos depois, já no 4º tempo em sala de aula para a prova…

Macaxeira: Frequentava as ruas do centro da cidade. Andava munido de apito e giz e fazia um círculo em volta dos veículos para mostrar suas infrações. Multava motoristas, “organizava” o trânsito, conseguia locais para estacionamento de outros e ficava de olho nos sinaleiros para ver se alguém ‘furava” o sinal. Apitava e com uma caneta e papel em mãos, multava o motorista infrator. Era o nosso mais conhecido guarde de trânsito. A única coisa que o tirava do sério era quando alguém o chamava de : Macaxeeeeeeeeeira!Ele prontamente respondia: _ “Pega no meu pau e cheira”!

Em outra crônica abordarei outros personagens como: Miltom Doido, Nega Maluca, Nega Charuto, Professor Guilherme, Saúba, Rubem Rôla, Bonitão, Rê-rê-rê Cagão, Buck, Gaivota e outros…

Manaus tinha tudo isso e muito mais, alguns imortalizados nos versos de poetas como Celito, Aníbal Beça e Thiago de Mello; outros esquecidos e levados pelo tempo e pelo progresso que se instalou em nossa querida cidade…pacata, liberta, hospitaleira e provinciana…outrora SORRISO!

*Almir Carkos é professor, pedagogo e escreve costumeiramente as história da Manaus antiga no Portal.
Os artigos assinados não refletem a opinião do Portal e são de inteira responsabilidade de seus autores.

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1 COMENTÁRIO

  1. O poeta Thiago de Mello, na obra “Manaus – Amor e Memória”, descreve Carmem Doida como moradora da Praça 14. Ela deve ter aparecido desde os anos 30, uma vez que se retrata, em parte, a infância e adolescência do poeta.
    A obra ratifica com o que foi supracitado sobre as reações de Carmem Doida ao ser importunada pela implicância de alguns transeuntes, como as normalistas que gritavam “Carmem Doida”, e corriam para dentro de estabelecimentos comerciais, como a Papelaria Velho Lino, situada na Avenida Sete de Setembro. Carmem Doida ainda recitava estranhos versos como estes:
    “Um, dois, três,
    Calça e paletó.
    Tem não, tem não,
    Remédio pra morte é morrer.”

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