Os bons de porradas de Manaus – brigões – valentões – tragédias…

Almir Carlos*

Na década de 1960, existia em Manaus, a figura do “bom de porrada”; geralmente um rapaz de classe média que se destacava pela sua bravura, seu destemor e seus punhos potentes e rápidos…agindo com destreza e rapidez, criava fama de valentão em nossa querida cidade. Retratarei alguns deles nessa crônica:

Otinha: Nascido no bairro de Educandos, de boa estatura e porte físico de atleta, cabeleira bem assentada e braços fortes. Tinha má fama em Manaus de ser descuidista, malandro e brigão. Comentava-se que sempre era contratado para acabar com os comícios do Paulo Pinto Nery, principalmente quando acontecidos em seu bairro. Um dia tiveram que esconder o Dr. Paulo em um bar próximo à Escola Machado de Assis em razão de uma briga generalizada quando este começava seu discurso numa eleição para Governador do Amazonas contra Gilberto Mestrinho.

Um dia estávamos eu e um amigo de Faculdade por nome Arnoldo, um paraibano baixinho e atarracado, tomando uma cerveja e esperando nossa peixada de tucunaré no Restaurante São Francisco lá no “alto” na esquina da Rio Negro com Ignácio Guimarães, quando apareceu aquele sujeito cheio de ginga, aproximou-se de nossa mesa e sem dizer uma palavra passou a mão em nossa cerveja, encheu seu copo e colocando o casco vazio de volta, vociferou: _ Eu sou o Otinha…
Eu quis levantar e sair cobrindo o abusado na porrada e o meu amigo percebendo o meu gesto, me conteve dizendo: _ Não te mete garoto, a bronca é comigo! Tranquilamente pegou a garrafa vazia, chamou a garçonete e disse em média voz: _ Essa quem paga é o playboy ai…e pediu outra.

O cara voltou, ficou olhando para o Arnoldo e rebateu: _ Camarada, você não ouviu o que eu disse? Eu sou o Otinha…quem domina aqui o bairro sou eu…Meu amigo calmamente respondeu: _ eu sou o Arnoldo e você vai pagar essa cerveja! Falou com tanta convicção, que o Otinha virou-se para a garçonete e em voz baixa, quase um sussurro, mandou que ela retirasse a garrafa de nossa mesa…não sei se por medo, por respeito, pelo jeito de meu amigo falar, mas, o Otinha pagou e não bufou…Alguns depois acharam estranha a parada.

Disseram que o normal era ele abrir uma porrada conosco. Outros disseram que ele era assim mesmo: quando sentia que o adversário era firme, baixava a bola, se acovardava…Graças a Deus a história ficou por ai…

Já na década de 1970, Otinha foi morto por um segurança de apelido Louro, na entrada da Casa de Shows DRIVE-IN, na Constantino Nery, ao lado da Escola Solon de Lucena, onde fui Diretor por muitos anos…Ele chegou e com sua arrogância peculiar, tentou entrar na marra, sem pagar ingresso. O segurança tentou contê-lo e ele lhe desferiu um potente soco, fazendo com que o Louro fosse ao chão…Depois de limpar o sangue que lhe escorria do nariz, Louro, puxou a arma da cintura, um 38 cano curto e desferiu dois tiros no Otinha, que já caiu morto…Acabava ali a saga do “Terror de Educandos”!

Segadilha: De estatura mediana, magro, porém com braços e muques fortes. Rápido e saltitante…dois prá ele numa briga era moleza…Eu mesmo tive a oportunidade de vê-lo colocar ao chão dois torcedores do Paissandu de Belém do Pará por ocasião de um jogo no Velho e Tradicional Parque Amazonense. Próximo a escadaria que dava acesso às arquibancadas, socou os dois com tal rapidez, que não deu tempo de esboçarem reação. Com os narizes sangrando, saíram correndo em direção à saída do Estádio; como diríamos à época: “ meteram o pé na carreira”!

Dizem alguns, que o Segadilha pegava o topete do Otinha com a mão esquerda e socava sua cabeça na parede dizendo: _ Eu sou doido que tu fiques puto comigo! O Otinha “metia o rabo entre as pernas” e ia embora, sem nada dizer!

Segadilha foi assassinado na antiga Cidade Flutuante, depois de uma briga em que o Otinha se envolveu com uns peixeiros que estavam bebendo na mesa ao lado da deles. O Otinha abriu a porrada e vendo que levava desvantagem, saiu correndo deixando o amigo em apuros. Um dos peixeiros lhe deu três tiros, matando-o…

Paixão: Nascido em tradicional família do bairro dos Tocos, atual Aparecida, adorava uma briga. De físico avantajado, impunha respeito pelo seu tamanho e valentia. Existia em Manaus, a Manduquinha (escrevi uma crônica há poucos dias sobre a mesma), carro da polícia que em várias oportunidades foi “virada” pelo Paixão que com uma força descomunal, dava porrada nos policiais e rebolava a Rural Willys da Instituição Policial. Comentava-se na cidade que por alguns anos os “Homens da Lei” evitavam fazer ronda ou entrar no bairro dominado pelo valentão. Dizem que numa oportunidade, ele, Paixão, “prendeu” a Manduquinha.

Era uma manhã de um sábado ensolarado e os policiais foram fazer uma varredura para coibir os empinadores de papagaio de efetuar a prática da brincadeira… O Paixão a socos e pontapés, botou todos os policiais prá correr e tomou a chave da viatura, decretando que só a liberaria com a presença do Chefe de Polícia. À época a Chefatura de Polícia era no antigo Casarão da Marechal Deodoro, onde hoje funciona uma Agência do Banco do Brasil e o Chefe maior era o temido Stênio Neves.

Este chamou dois agentes e mandou que o acompanhassem até o bairro de Aparecida. Chegando na Bandeira Branca onde o Paixão se encontrava sentado tranquilamente olhando a meninada brincando na Praça, o doutor Stênio desceu da viatura, cumprimentou os presentes, pediu a chave do Paixão, este a entregou e o Chefe de Polícia virando-se para o policial que o acompanhava falou: _ Está vendo como é que se faz? Tem que saber falar com as pessoas! Deu boa tarde a todos, entrou no veículo e foram embora…

Um dos Paixões (eram 3 ou 4 irmãos), foi assassinado na Rua Ferreira Pena, quase esquina do Boulevard Amazonas, ao lado do antigo Cine Palace. Uma briga de trânsito, ele desceu de sua caminhonete e tentou puxar o motorista do carro envolvido na confusão, com o intuito de lhe dar uns tapas.

O rapaz sem descer do seu veículo, puxou de um revólver e efetuou um só disparo, o suficiente para acabar com a vida do valentão! Mais um afamado brigão finava naquele momento, em uma cidade ainda livre de todas essas mazelas que se instalaram depois da implantação da Zona Franca de Manaus, que trouxe o “Progresso” e o “Desenvolvimento” para a outrora cidade-sorriso!

*Almir Carlos é professor, pedagogo e escreve costumeiramente neste Portal sobre a Manaus antiga.
Os artigos assinados não representam a opinião do Portal e são de inteira responsabilidade de seus autores.

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