Meu último banho do ano!

Carlos Costa
Carlos Costa* 

Adolescente sonhador e deslumbrado com a vida imaginava que me banhando demoradamente em baixo do chuveiro no dia 31 de dezembro, todas as sujeiras do ano velho se iam ralo abaixo, e eu sairia leve de todas as maldades humanas depois disso, sem nenhuma impureza para, todo de branco, esperar a entrada do ano novo, limpo, esperando as novas sujeiras do novo ano, preparadas pelos homens sem amor…

Sempre que entrava no chuveiro para o banho no último dia do ano, passava longos minutos, porque em minha inocência sonhadora via nitidamente a sujeira de meu corpo descendo pelo ralo, durante o banho. Depois, me aprontava e esperava pacientemente o novo ano chegar.

Também imaginava um velinho carregando um saco às costas, pesado com todas as nossas maldades e um garotinho faceiro chegando carregando um saco vazio para ser colocado tudo de novo dentro. Doce ilusão infantil a minha! Essa cena foi retratada pelo chargista Miranda, no Jornal “A Crítica”, em Manaus, reforçando ainda mais minha crença que a “troca” do ano velho pelo ano novo era exatamente o que eu imaginava, mas não era.

Hoje, na burrice de meus quase 53 anos de vida, não consigo fazer meu filho tomar banho, usar sandálias aos pés ou pentear o seu vasto cabelo.

Ele me pergunta: “Pai, quando o senhor começou a ficar careca?” –

Eu respondo: “Depois de meus 26 anos de vida, mas você me parece que puxará para seu avô materno, que tinha só ligeiras entradas, mas não era totalmente careca como eu sou. Além disso, embora a calvície seja genética – meu avô e meu pai biológico são carecas – acho que você não puxará para ninguém de minha família, exceto pelo excesso de pelos no corpo”, respondo, para tranquilizá-lo, mas acho que meu filho também ficará calvo muito novo também, embora nada me confirme essa hipótese.

Mas voltemos ao tema de minha crônica, em minha a época atual:

Durante o banho, me esfregava com sabão cutia, passava a esponja e derramava água diversas vezes em meu corpo. Só parava com esse ritual idiota quando me sentia limpo de tudo, inclusive das molecagens que fazia com meus colegas de rua e me sentia leve como uma pluma, pronto para voar e pensar em outras bobagens como essa, que só tinham sentido em meu íntimo porque, bem no fundo, eu já sabia que as maldades do mundo continuariam acontecendo sempre, que os impostos continuariam elevadíssimos no Brasil e que a corrupção pública continuaria muito elevada em todos os anos futuros, embora, mais uma vez, eu tenha repetido o mesmo ritual do banho de minha adolescência, no dia 31 de dezembro, mas já sem esperar grandes resultados!

*Carlos Costa é Assistente Social, jornalista, escritor e cronista

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