As figuras inusitadas de nossa Manaus – verdade ou mentira?

Almir Carlos*

Desde o meio do ano passado afastado sem escrever para o Amazonianarede, o professor Almir Carlos, volta a contar as suas histórias e causos da cidade de Manaus, coluna que já estava sendo reclamada pelos leitores. O colunista que é professor e pedagogo está na Argentina, Buenos Ayres, fazendo doutorado de onde virão a partir de agora os seus trabalhos. Fique a seguir com a coluna e boa leitura.

Manaus além do calor e da simpatia de sua gente, sempre contou com figuras inusitadas que quase se transformaram em mitos, lendas ou folclores. A seguir destacarei as principais e que marcaram presença nas rodas de conversas no Canto do Fuxico e no Café do Pina por algumas décadas, fazendo parte inclusive do anedotário popular:

1. Alfredinho: Cidadão muito conhecido em Manaus por ter sido um dos primeiros mecânicos, lanterneiros e pintores de autos em nossa cidade: baixinho, lépido, meio gago e nervoso, tinha sua Oficina na Leonardo Malcher, fazendo fundos para a Silva Ramos. Acordava cedo, abria sua Oficina e ficava a espera de fregueses; enquanto isso andava de um lado para o outro… da João Coelho até a Ferreira Pena e voltava. Numa dessas idas quando retornou encontrou o Kakizoé, japonês que estava se estabelecendo em Itacoatiara e que acabara de estacionar seu Aero Willys…o Alfredinho o cumprimentou e entabularam uma conversa acerca da pintura do carro…Ficou decidido que o automóvel seria pintado de Cor de Vinho e que demoraria umas duas semanas…

Decorrido o tempo estabelecido, o nipônico dirigiu-se à oficina para buscar seu carro. Qual não foi sua surpresa ao chegar ao Estabelecimento automotivo e se deparar com um único carro da marca do seu, só que pintado de amarelo. Meio desconfiado Kakizoé perguntou: _ Alfredinho, cadê carro meu? Alfredinho tranquilamente apontou para o amarelão e disse: _ Tá aqui, ficou bonito não ficou? Ao que o cliente num misto de espantado e puto da vida retrucou: _ mas eu mandar pintar cor vinho non? E o Alfredinho mais rápido que o Sanclair: _ Então…taí…cor de vinho de buriti !!!

2. Hissa : Conhecido turco morador antigo de nossa cidade, era famoso por “dar nó” em trabalhadores, não gostava muito de pagar por trabalhos feitos…Um belo dia estava ele “molhando a garganta” no Botequim do Portuga ali na Ferreira Pena quando se vira para dar a famosa “cuspida de pato”, dá de cara com uma figurinha esquálida, baixinha, miúda que se aproxima timidamente e o aborda: _Seu Ixa, cadê o meu dinheiro, seu Ixa ?…já faz mais de 15 dias que eu terminei o “selviço” e o senhor não me pagou ainda! O turco encravando seus olhos de águia no pobre coitado, ríspida e severamente lhe dá um ralho:_ Que é isso Sebastião? Você vem me cobrar aqui, na frente de meus amigos? Por favor, vá lá em casa! O Bastião de olhos baixos e um fiozinho de voz responde: _ Desculpe seu Ixa, mas é que eu vou todo dia na sua casa e não lhe encontro, aliás seu Ixa, eu vou mais na sua casa do que o senhor!

3. Seu Emílio – Português que tinha uma quitanda furreca ali na Dr. Moreira, bem ao lado da Importadora Carioca. Solteirão e sem filhos ou parentes, era figura conhecidíssima dos quantos frequentavam o centro da cidade que fervilhava de pessoas a procura dos produtos importados.

No auge da Zona Franca, ganhando dinheiro que nem dava tempo de contar, mas, muito avarento, não tinha coragem de gastar seu rico dinheirinho com nada que ele julgasse supérfluo ou menos importante como roupas, carros, móveis… perfumes nem pensar…Inclusive morava nos fundos do comércio, num cafofo malcheiroso e desarrumado…

A única diversão de seu Emílio era uma vez por mês, frequentar a casa de uma prostituta já meio cansada que lhe dava carinho e lhe cobrava um preço bem abaixo do praticado no mercado do baixo meretrício…

Um dia seu Emílio vem chegando a casa da velha mariposa e esta nem o deixa puxar a respiração e lhe pergunta: _ Emílio, tu tá comendo de quanto eh? E ele: _ Estou a pagaire 10 cruzeiros, purquê, caralho? É que eu aumentei, agora são 15 cruzeiros_ disse-lhe a rapariga…Ele muito puto deu meia volta, fez cara de “não quero mais” e saiu resmungando: _ Ora curalho, por um preço desse eu prifiro tocaire uma punheta! E foi embora para nunca mais voltar!

4. Horácio – Outro português que aqui se estabeleceu na década de 1960. Sobrinho do Manuel de Abreu, proprietário de diversos imóveis pelo centro da cidade, inclusive as duas esquinas uma de frente para a outra na Silva Ramos com a Japurá, outro na Vila Municipal ao lado do Reservatório do Mocó e outros espalhados pela cidade.

O Horácio herdou tudo do tio solteirão que não tinha deixado herdeiros e começou a explorar um barzinho. Interessante é que o mesmo, diferente dos outros portugueses que conhecíamos, era desapegado ao dinheiro ou pelo menos não tinha toda a avareza de seus patrícios. Frequentávamos todos os dias seu estabelecimento, até porque era passagem obrigatória das belas estudantes do Colégio Auxiliadora.

Um belo dia, uma segunda-feira, o Horácio abre seu boteco e aparece no balcão com um sotaque bastante carregado, um portuguesinho, miudinho, raquítico, de voz arrastada que se apresentou como primo do dono. Com o passar dos dias o Juquinha (já o tínhamos apelidado assim) começou a nos fazer muitas perguntas sobre a cidade: _ onde fica o Reservatório do Mocó? O bairro do Alvorada é muito longe? O bairro da Cachoeirinha é muito pobre? Ao mesmo tempo em que nos vendia fiado, não nos cobrava; quando íamos pagar ele não tinha anotado e nem lembrava mais…

Começamos a desconfiar e o Sabá Marinho descobriu conversando com ele, que ele se dizia ludibriado pelo Horácio: Sendo os dois os únicos parentes do Manuel de Abreu, tudo fora herdado por eles…O Horácio muito esperto, quando recebeu a notícia da morte do tio, falou para o Juquinha: _ Eu vou lá ao Brasil, vejo o que nosso tio deixou, vendo tudo e te mando tua parte, pois não? Tudo acordado. Quando o Horácio aqui chegou e viu o que herdara, “cresceu o olho”. Tirou fotos do bairro do Alvorada quando ainda era a “Cidade das Palhas” e mandou para o Juquinha dizendo que conseguira vender tudo por 25.000 mil cruzeiros e que lhe estava mandando sua parte 12.500 cruzeiros…Passados alguns anos e como o Horácio não fosse embora como tinha falado, o Juquinha resolveu vir “in loco”, conhecer a cidade…Vendo que tinha sido enganado decidiu ficar calado e passou 10 anos “desviando” dinheiro do comércio, juntou uma boa grana e montou o seu próprio negócio…

Temos personagens que retrataremos em outro artigo brevemente; por enquanto ficamos com estes, na certeza de que cada um de nós que viveu aquela Manaus da década de 60/70, terá lembrado de algum cidadão que ajudou a construir não só o folclore da pacata cidade, como sua própria história!

Ao ilustre amigo Diniz que mesmo morando na Cidade Maravilhosa, não esquece um minuto de sua querida Manaus, cheia de mil contrastes, porém sedutora e fiel!

*Almir Carlos é professor, pedagogo e atualmente faz mestrado na Argentina 

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