Incêndio de casarão expõe falta de conservação

Amazonianarede – DOL

Belém – No sexto andar do edifício ao lado dos casarões incendiados no início da semana no bairro do Reduto, em Belém, há uma placa de venda do apartamento. Coincidência ou não, é sintoma do que têm vivido os que moram no prédio, ilhados e reféns de moradores de rua que a alguns metros dali transformaram uma calçada em moradia improvisada. É sobre esses moradores, consumidores constantes de ‘cola de sapateiro’, que recaem as principais suspeitas de serem os autores dos incêndios que praticamente destruíram os casarões da esquina da rua General Magalhães, no perímetro conhecido como ‘Doquinha’.

“Esse incêndio foi menos pior para nós porque foi no outro casarão, mais afastado. Mas esses desocupados estão se apossando do local, ameaçam a todos nós. Viramos reféns deles”, diz Sérgio Barata, há 12 anos morando no prédio. Na sexta-feira, a polícia retirou os moradores de rua do local.

Morar ao lado de dois casarões que entre 2012 e esse início de 2013 já sofreram quatro incêndios é tenso. “É complicado. A gente fica um pouco com medo de ter a casa invadida”, diz Ana Maria Meireles, 40 anos, há uma década morando na General Magalhães. Ana Maria tem a receita para locais como esse. “O governo poderia construir uma creche, uma coisa que servisse à população”.

Não tem sido fácil. Ao longo dos anos, as diversas administrações municipais e estaduais não conseguiram definir exatamente o que fazer com a riqueza patrimonial de Belém. A herança portuguesa, os vestígios da Bélle Époque, o visionarismo de Antonio Landi, parecem ser mais um estorvo que possibilidades criativas a prefeitos e governadores. E como raramente há continuidade nas ações, ideias e projetos se sobrepõem indefinidamente.

Os casarões, que já viram dias melhores, permanecem abandonados. “Não há o que se possa fazer de nossa parte em relação à prevenção. Cabe a outros órgãos”, diz o coordenador da Defesa Civil Leoni Marques.

Há imóveis históricos, belos, únicos, como a Biblioteca Avertano Rocha, em Icoaraci. Ela chegou a vir abaixo totalmente. Passou por um breve período de renascimento, na gestão do então petista Edmilson Rodrigues, mas foi novamente relegada ao abandono na gestão Duciomar Costa. Com as recentes chuvas, está parcialmente alagada. E não tem mais sido útil aos moradores.
Falta de tombamento: sentença de morte

Há muitos outros imóveis históricos abandonados. O chalé José Porfírio e o Antônio Tavernard, também em Icoaraci. Padecem do azar de não serem tombados pelo Estado. É o que informa a diretora do Departamento do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Estado do Pará (DPHAC-Secult), Thais Toscano.

É como uma sentença de morte aos imóveis. A DPHAC diz que o órgão de patrimônio, que possui maior ingerência em Icoaraci e no próprio Centro Histórico de Belém, é a Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel). Segundo Thaís Toscano, é a Fumbel que dispõe de ferramentas, tais como isenções de IPTU e que conta com a logística da Municipalidade (Secretaria de Urbanismo, Defesa Civil, Sefin), que pode participar ativamente na salvaguarda de bens de interesse à preservação’.

“O Palacete Faciola, que pertence à classe dos antigos casarões, é o único tombado pelo DPHAC, sendo inclusive de propriedade do Estado. A Secult já está na fase de finalização de projeto de restauração e pretende iniciar as obras ainda no primeiro semestre de 2013”, diz ela.

Andar pelas ruas de Belém é dar com os olhos em dezenas, talvez centenas, de prédios abandonados, casarões esquecidos, fechados. Ampliando esse olhar e as discussões que se possibilitam a partir dessa constatação, o professor e pró-reitor de relações internacionais da UFPA, Flávio Nassar, criou o projeto UFPA 2.0. No blog que mantém, Nassar mostra um pouco da Belém que está se perdendo. “Ações desse tipo possibilitam a criação de um repositório para o patrimônio histórico da cidade”, explicou Nassar a respeito da iniciativa.

A Fumbel diz possuir ideias novas para esse patrimônio. “A atual gestão da Fumbel está empenhada em elaborar um levantamento e um diagnóstico da real situação dos casarões abandonados ou subutilizados, localizados no Centro Histórico de Belém e entorno, com vistas à implementação de medidas, objetivando sua recuperação e utilização voltadas ao interesse social”, tenta explicar José Monteiro, diretor do Departamento Histórico da Fumbel.

A iniciativa privada, se bem utilizada, pode ser de grande ajuda. Na Praça do Arsenal, um casarão abandonado até pouco tempo atrás começa a ser recuperado. A dupla de investidores prefere não aparecer publicamente ainda, mas já cedeu R$ 320 mil para dar reforço às estruturas do casarão, conhecido mais ou menos como ‘Bagé’. É um imóvel de 1892 que já serviu de mercado. “Seja o que for definido sobre o que iremos fazer, iremos preservar essa estrutura original”, promete um dos sócios. A memória de Belém agradece.

(Diário do Pará)

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