Falta leite nos laticínios de Rondônia

(Reportagem: Ana Aranda)

Carro chefe no orçamento de cerca de 40 mil propriedades rurais com mão de obra familiar, a produção leiteira passa por dois gargalos em Rondônia. A falta de assistência técnica e de organização dos produtores em cooperativas.

Segundo o analista de cooperativas do Sescoop (Serviço Nacional de Aprendizagem em Cooperativa de Rondônia), Elder Rodrigues, o órgão tem o cadastro de seis cooperativas do setor no Estado, congregando 600 produtores, sendo que 500 destes fazem parte da Cooprolim, de Rolim de Moura. Estes números mostram o tamanho do desafio. E na assistência técnica a situação também é desanimadora. Apesar de uma boa capilaridade – a Emater (Empresa de Extensão Rural) conta com 92 escritórios – o número de técnicos ainda é pequeno. Mesmo com as dificuldades, os pequenos produtores cumprem a sua parte, a pecuária leiteira tem trazido dividendos importantes para o Estado e o potencial de crescimento é grande. “A venda do leite garante uma renda mensal para o produtor, que gira, alimentando o comércio local, além dos tributos gerados”, considera o presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios de Rondônia, Pedro Bartelli.

Segundo o empresário, na entressafra – durante o período da estiagem – os laticínios trabalham com 50% da capacidade no Estado e com até 80% nos meses da chuva. A produção reduz de 2,5 milhões de litros/dia para 1,8 milhões entre as duas estações, informa ele. Portanto, existe mercado para a produção. Bartelli considera a necessidade de os produtores utilizarem a silagem de alimentos para aumentar a produtividade no período de entressafra. A organização em cooperativas é outro ponto importante, porque facilita a comercialização, analisa.

Bartelli é otimista. Para ele, medidas simples como a melhoria de condições de higiene já poderiam dar bons resultados. “Aumentar a produtividade de uma média de a 4 litros/dia para 8 litros/dia não é difícil. Qualquer mudança pode fazer diferença”, afirma.

Investimento para entrar no mercado promissor

Recentemente, o presidente do sindicato investiu R$ 25 milhões na implantação de um laticínio para utilização do soro do leite, um produto que até agora vinha sendo desperdiçado. “A montagem de um laticínio exige a certeza de bons negócios, porque são empreendimentos que não podem ser simplesmente desmontados para serem levados para outro lugar. E se há investimentos desta monta no Estado é porque Rondônia oferece um bom potencial para o negócio”, informa.

O comparativo da produção de leite, 2.5 milhões de litros/ dia, e a população do Estado, 1,8 milhões da habitantes (IBGE/2012) mostra que está sobrando leite em Rondônia, sendo que a maior parte da produção de Rondônia é comercializada em outros Estados. O mercado brasileiro – que hoje importa derivados do leite – é promissor, de acordo com Bartelli. “A nossa pecuária leiteira tem apenas 20 anos. Não dá para comparar com a de outros Estados, como Goiás e Minas Gerais, que são muito mais antigas que a produção de Rodônia. Temos muito para melhorar, mas o setor está caminhando”, afirma o empresário.

Agricultura familiar precisa de tecnologia

O secretário estadual de Agricultura, Evandro Cesar Padovani, afirma que o governo do Estado reconhece a importância do papel social da produção leiteira no Estado, desenvolvida em um terço das pequenas propriedades, e tem feito investimentos no setor, com a difusão de novas tecnologias, recuperação de áreas degradadas, orientação para melhoria de pastagens e silagem para alimentar o gado na entressafra. Outro programa importante é a implantação de agroindústrias, voltadas para o leite e outros produtos.

Segundo Padovani, a média de produção de leite de Rondônia é de 4,4 litros/dia por vaca, “que ainda é muito baixa e precisa alavancar”, afirma. Nos últimos dois anos a produção total do Estado teve um pequeno declínio de 11% com relação ao ano anterior. Para melhorar a vida do pequeno pecuarista de leite, o governo facilita o acesso ao crédito bancário, com recursos do Fundo Estadual de Desenvolvimento da Agricultura Familiar. Outra frente de trabalho é a regularização fundiária e o CAR (Cadastro Ambiental Rural).

Padovani reconhece que há necessidade de fortalecer a extensão rural em Rondônia. A Emater está passando por uma mudança com a transformação de empresa privada para pública e depois deste processo poderá aumentar o número de técnicos. O secretário aponta a criação da ATER (Agência Nacional de Extensão Rural), cuja implantação está em andamento, como um passo importante para melhorar a agricultura familiar. “O campo está cada vez mais tecnológico e a agricultura familiar está atrasada”, considera.

Produtos regionais com gostinho do campo

Durante o XII Congresso Nacional do Leite, realizado em Porto Velho, na semana passada, chamou a atenção o estande da Agrossipro, uma cooperativa de vendas que conta com nove integrantes. O presidente da entidade, Ademar Santana, conta que só não vendeu mais durante o evento porque não conseguiu trazer outros produtos de Colorado do Oeste, onde reside. No pequeno estande, foi comercializado queijos, iogurte, geleia e molho de pimenta, café artesanal e mel. Tudo com o gostinho dos produtos feitos no campo.

Criada há dois anos, a Agrossipro montou estandes em feiras agropecuárias de Ji-Paraná e Pimenta Bueno e com isso foi ampliando os contatos. “Tem mercado para todo o mundo”, afirma Santana. Inclusive para o exterior. Ele conta que recebeu uma proposta para vender pimenta – que é o carro-chefe da pequena propriedade que ele arrendou em Colorado – no Canadá, mas não fechou o negócio porque ainda não tem a estrutura necessária.

A produção de pimenta surgiu de “uma paixão” de Santana pelo produto. Além de plantar, em um terreno arrendado, ele fabrica molho e geleia. O presidente da Agrossipro considera “fundamental” para o sucesso do negócio, as informações que recebeu em um curso Empretec ministrado pelo Sebrae. “Aprendi que há necessidade de produzir gastando pouco. Por isso, utilizo frutas regionais, como a manga e a goiaba, para fazer as geleias de pimenta”, exemplifica.

Paranaense, Santana trabalhou durante dez anos em uma cooperativa antes de se mudar para Rondônia e considera que esta experiência foi “fundamental” para o trabalho associativistas que está realizando hoje em Colorado do Oeste. “Os pequenos produtores precisam de informação para se desenvolver. Com tecnologia dá para transformar capim em dinheiro”, afirma.

Rodutores apostam no leite

Produtores de leite em Monte Negro, na região de Ariquemes, a 200 quilômetros de Porto Velho, Nilson Rosa dos Santos, 43 anos, e José Pacheco, 49, vieram para Rondônia no final dos anos 1980, juntamente com outros milhares de agricultores. Vivem do leite. Nilson, “um pouco mais avançado”, segundo afirma, faz parte de uma cooperativa e produz muçarela e outros queijos. Tem uma propriedade de 22 alqueires, 130 vacas e uma média de produção de 6 litros por vaca/dia. José produz em média 3,5 litros/dia em 10 hectares de terra e quer melhorar. Ele também pertence a uma cooperativa, mas ainda vende o leite in natura. “Naturalmente, eu gostaria de aumentar a produção, mas para isso preciso de dinheiro”. Ele afirma que já tentou fazer um financiamento bancário, mas foi vencido pela burocracia.

Nilson e José participaram na semana passada do XII Congresso Nacional do Leite, realizado pela primeira vez na região Norte, com a participação de especialistas de seis países, estudantes, produtores, autoridades e empresários. “Estamos felizes com esta oportunidade. Considero que depois do congresso, as autoridades vão olhar com mais carinho para a produção leiteira do Estado. Uma pena que o número de pecuaristas que participaram do evento não foi maior”, afirmou Nilson dos Santos.

Para os produtores, o maior problema do setor é a comercialização, que se agrava com a falta de informação e de assistência técnica. Eles também apontam a necessidade de pesquisas para o setor. Mas apesar dos gargalos, continuam acreditando. “Eu tenho leite nas veias”, afirma José Pacheco. Com os filhos criados, ele recentemente comprou mais 5 alqueires de terra pra reforçar o plantel e continuar produzindo.

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