Explicando o poeta

Carlos Costa*

Deveis saber, senhora, quão difícil é penetrar no coração de um poeta apaixonado. Ele baila, dança, foge, corre, ama e desama em fração de segundos, mas permanece fiel à sua musa, à sua paixão, e jamais se permite a amores levianos, senão para satisfazer a curiosidade de seu dono. O coração de um poeta apaixonado, senhora, é como o coração de uma criança, está sempre pronto para ser infantil o suficiente para sorrir ao mundo e maduro o bastante para ter um legítimo amor, mesmo que só por baixo de seu imenso bigode que ostenta.

Não estranheis, senhora, quando o poeta se perder, por segundos apenas. E que seu pensamento vai mais além do que vossa sensível imaginação. Não interpreteis, portanto, à risca, essa fuga repentina. Ele volta e volta rápido, porque o poeta apaixonado é uma criança fácil de domar; basta dar-lhe um pouco de carinho, atenção e momentos felizes, mesmo que só por debaixo de seu imenso bigode.

Entendeis, gentil senhora, que o poeta ama a tantas pessoas quando o for a sua vontade de amar, mas somente a uma ele dedica amor, carinho, permanência, respeito e profundo e afeto real. Às outras, senhora, o poeta dispensa atenção apenas, não passando mais do que isso.

Fostes vós, senhora, a eleita para ocupar a parte maior do coração do poeta de bigodes fartos. Não haverá outra a tomar o vosso lugar porque não há lugar para dois amores; apenas, para um. Deveis saber senhora, quão realista e, ao mesmo tempo, realista e imaginativo é o poeta. Ele parece estar presente ao vosso lado, por alguns instantes. Isso ocorre senhora, mas é o momento em que o poeta dá vida a sua imaginação.

Lembreis, senhora, do que um dia recebeis do poeta uma flor; não ganheis dele uma flor apenas, mas uma porção de rosas representadas por uma só. O poeta é assim. Ele parece pequenino, mas é grande em seus gestos, em suas ações.

Uma rosa, gentil senhora, é o maior símbolo para o poeta campista. Depois vem a lua, sua musa inseparável. Ah, senhora, esqueci de dizer que a lua vos rouba meu poeta, sempre, e leva o poeta e passar horas pensando na luz, imaginando quão bela é sua eterna amante, ela cravada no céu e ele parado na terra, sem poder abraçá-la ou tocá-la.

Mas, senhora, não penseis que o poeta de bigodes fartos, parecendo uma andorinha que ele comeu e esqueceu de limpar as penas depois, vive só de imaginação; ele é realista, sabe encarar os problemas, sabe enfrentar a vida, principalmente, quando possui ao seu lado vosso infinito amor.

Aconselho-vos, senhora, a aceitar o amor de meu poeta. Afinal ele só é diferente dos outros por ser mais puro e mais difícil de ser penetrado. Se vós conseguirdes isso, tereis para sempre um poeta do vosso lado; não para fazer versos e amar a lua. Tereis para sempre um poeta ao vosso lado não para fugir sempre e se deixar roubar por amores outros, não para se perder entre as noites; mas sim, para somente um homem comum, um homem com um farto bigode e um grande gentleman.

Ame um poeta, senhora, e tereis sempre uma vida de amor!

( para Jorge Tufic)

*Carlos Costa é assistente social, escritor, cronista e jornalista.
carloscostajornalismo.blogspot.com)

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.