Chuva “de apagões”: estamos fazendo a coisa certa?

Ronaldo Santos
Ronaldo Santos* 

As chuvas de (quase) verão, têm trazido seus problemas. Em muitas cidades, entre elas Manaus, as estruturas de energia elétrica tem sucumbido e gerado apagões. Prejuízos e transtornos são comuns neste período.

Os problemas não são apenas e falta de energia. Há destruição de infraestrutura e prejuízos urbanos (de maneira geral). O único que pode ser evitado, contudo, é o da energia elétrica. Os outros só rezar, ou no máximo, deslocar pessoas de áreas de risco – isso quando sabemos com certa antecedência – o que nem sempre é possível.

O tema é eminentemente ambiental. Em outras palavras, é assunto que passa pela forma que conduzimos a gestão dos recursos naturais. Vejamos.

Energia da água

O cerne desta questão está no modelo de energia elétrica (fonte, geração e distribuição) que escolhemos. Detenho-me, mais especificamente, ao da região Norte e no Amazonas. Em outras palavras, o modelo justifica os problemas?

Sem novidade alguma, o nosso formato de energia é baseado, enormemente na produção de energia hidrelétrica (aquela oriunda das turbinas que são movimentadas pelas águas dos rios).

O Brasil adotou este modelo menos poluente, ainda que paradoxalmente mais cara para o consumidor. O argumento anterior é rebatido por boa parte dos ambientalistas, mas nem todos.

Ao que nos consta, éramos a última região do pais (juntamente com Amapá) a ter um sistema isolado. Explicando: as redes de transmissão nestas regiões não tinham conexão com a do restante do pais (o chamado Sistema Interligado Nacional). O resultado é que apagões em outras regiões não causavam efeito cascata por aqui. Era uma vantagem.

Estamos fazendo a coisa certa?

Segundo os técnicos do setor, vantagem ainda maior será estar totalmente interligado (a hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, uma das maiores do mundo, irá unir as duas regiões antes limitadas). Neste modelo, uma queda em Maceió poderia causar problema – dependendo do motivo – por estas bandas.

O problema deste modelo é depender da mãe natureza. No período invernoso, com chuvas em demasia, bom para encher as barragens e garantir a energia gerada e distribuída; contudo, também trazem descargas atmosféricas (muitas das quais são as culpadas por parte do desligamento das redes).

Já na seca enfrentamos o perigo da falta de água nas barragens. Isso acarreta em possibilidade de racionamentos.

Inveja

Apesar destes “probleminhas”, dizem que os outros países nos invejam por termos abundância de recursos energéticos.Criticos brigam por barrarmos (interrompermos) os cursos dos rios, inundarmos comunidades (ribeirinhas, indígenas), reduzirmos biodiversidade. Nunca teremos unanimidade.

A verdade é que a energia elétrica deixará de ser dor de cabeça e, portanto, menos questionada, quando não mais sentimos sua falta (ou seja, ela não faltar no interruptor). Quando este dia chegar pouco será discutido de onde ela vem tão pouco pra onde vai. Ficará a discussão apenas para os teóricos, técnicos, acadêmicos e gente do setor. Chegaremos lá?

*Ronaldo Santos é engenheiro-agrônomo e servidor público federal de carreira, no INCRA.
Os artigos assinados neste Portal são de inteira responsabilidade de seus autores.

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