Casarões antigos de Belém estão abandonados

Amazonianarede – DOL

Belém, PA – Com o olhar bem atento à rachadura que figura na parede da sala e na calha que, furada, faz com que a água da chuva maltrate a fachada do casarão antigo no bairro da Campina, o aposentado Ubiracir Flexa espera que o pior não aconteça. Sem condições financeiras de arcar com os custos da reforma do casarão adquirido há 40 anos, ele se sente maltratado sempre que constata mais uma degradação na edificação carregada de história.

“Estou precisando fazer uma reforma nessa parte de cima, mas não tenho condições. Há mais de ano que tá precisando mexer, mas ainda não deu”.

Em alguns cantos da casa, a necessidade de manutenção anunciada pelo senhor fica aparente. Logo na entrada, na parede da fachada, pela parte de dentro e próximo ao forro, uma vegetação vertical já começa a brotar da parede úmida, o mesmo percebido em um canto da parede do grande salão usado como sala de estar. “A calha está furada e a água cai aqui para dentro. Às vezes, quando está chovendo muito, mando todo mundo sair daqui dessa parte da frente porque fico preocupado de ficar aqui perto (do local onde as paredes estão marcadas pela umidade e rachaduras)”, aponta. “Essa casa era muito linda. Quando eu comprei, era bancário e, naquela época, bancário ganhava muito bem. Às vezes eu penso em vender, mas fico com pena. Me entristece ver ela assim, mas ainda não tive condições de reformar”.

PERIGO

Basta uma volta pelos bairros da Campina e Cidade Velha e por avenidas como a Nazaré, José Malcher e Assis de Vasconcelos em Belém, para que os riscos oferecidos por alguns casarões antigos fiquem claros. Sem que seja necessário uma análise mais aprofundada para perceber, à primeira vista e mesmo aos olhos de quem não possui conhecimento técnico sobre o assunto, os prédios já demonstram a possibilidade de queda de parte da estrutura.

Em situações muito mais precárias do que os problemas pontuais observados na casa de Ubiracir, os casarões desabitados também escondem perigos para a cidade.

No casarão localizado na avenida Governador José Malcher entre a avenida Visconde de Souza Franco e a travessa Almirante Wandenkolk, a presença de plantas que surgem da estrutura do prédio é percebida logo na fachada.

Como algo que lembra a copa de uma árvore saindo do topo do prédio, as raízes da planta se emaranham por uma boa parte da parede.

Com os portões trancados por uma corrente e com uma grande quantidade de vegetação e de entulho no interior do terreno que circunda o prédio, o imóvel não parece ser habitado há bastante tempo. Ainda assim, a imagem de pedaços de madeira do telhado já pendurados, a ponto de cair, preocupa quem precisa passar pelo local. “Isso aí, se passar mais um tempo, não deve aguentar mesmo”,deduzia Antônio Ribeiro, que avistava o casarão do outro lado da rua.

Em condições parecidas, outros casarões instalados na avenida Assis de Vasconcelos e na esquina das rua Ferreira Cantão e General Gujão também apresentam indícios de risco a quem mora nas proximidades.

No prédio localizado no bairro da Campina, a presença de árvores emaranhadas na estrutura do prédio também é muito grande. “Esse prédio aí já está cedendo todinho na parte de trás. Isso aí vai se acabar”, acredita o bombeiro militar Sandro de Oliveira, que costuma passar pelo local. “As árvores já estão aí. Se der um vento forte e uma chuva grossa, isso aí pode vir abaixo”.

É também a força da chuva que preocupa o corretor de imóveis Paulo Vasconcelos, morador da área. Sem que observe a preocupação de qualquer pessoa com o imóvel, ele afirma que não se sente tranquilo como vizinho do local. “Preocupação a gente tem. Acho que se fosse para desabar, já tinha desabado, mas a gente não deixa de correr o risco”,afirma, ao apontar que prefere acreditar na possibilidade da estrutura ainda estar firme. “Nunca se sabe, né? Sabe-se lá se isso não vai cair com uma chuva forte, mas a gente prefere acreditar que não cai mais não”.

PATRIMÔNIO

Belém possui cerca de 7 mil imóveis e conjuntos urbanos localizados no centro histórico e seu entorno, segundo dados de 2012 da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), que incluem desde praças, mercados, igrejas e outros monumentos até os casarões residenciais e outros que foram transformados em comércios e até depósitos.

Há recursos para evitar o abandono e os riscos

De acordo com a arquiteta e urbanista Milene Coutinho, são muitos os indícios que, se observados a tempo, podem ‘prever’ a ocorrência de acidentes em casarões. Segundo ela, é preciso atentar para os sinais aparentes.

“Algumas rachaduras precisam ser observadas. Rachaduras que não são apenas no reboco, mas sim, que possam demonstrar um abalo na estrutura. O telhado também precisa ser observado, assim como as telhas. Tem que se verificar se o piso está desnivelado e, observado isso, chamar um engenheiro calculista para verificar se esses sinais demonstram realmente um abalo estrutural”, orienta, sem esquecer das vegetações que podem se instalar em tais prédios, principalmente quando estão abandonados. “Tem plantas que podem se desenvolver quando há uma rachadura e isso também pode oferecer riscos de desabamento ao prédio”.

Para além dos casarões abandonados, a arquiteta Milene Coutinho também destaca a necessidade de atenção aos casarões que ainda são habitados. De acordo com sua percepção, há muitos casarões habitados em Belém que podem oferecer risco de desabamento. “Existem muitos casarões na cidade com risco de desabamento e existem alguns abandonados. Muitas vezes, esse risco fica aparente. Os órgãos competentes precisariam fazer um mapeamento de tudo isso”, acredita. “Às vezes as pessoas não têm dinheiro para reformar o imóvel porque pode ser um imóvel tombado que, muitas vezes, a pessoa recebeu como herança. Mas esse é um problema de toda a cidade”.

Segundo Milene, um dos fatores relacionados a esse problema pode ser o próprio desconhecimento das pessoas acerca das possibilidades de alocação de recursos para reforma de prédios históricos. “Também é preciso observar se a casa faz parte do patrimônio histórico porque existem vários incentivos fiscais”, aponta. “Embora existam programas federais, há um desconhecimento das possibilidades de alocação de recursos para a reforma e manutenção desses casarões”. 

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