Caos na saúde: falta de leitos faz mais uma vítima em Belém

Com a dor pela perda recente do irmão estampada nos olhos, o microempresário Valdemir Silva Viana tomou uma decisão. “Eu não vou mais aguentar isso. A partir de hoje eu vou em toda passeata que tiver pra pedir melhoria pra saúde”.

Internado no Hospital de Pronto-Socorro Municipal Humberto Maradei, no Guamá, há aproximadamente uma semana, o irmão de Valdemir morreu ontem, segundo o microempresário, à espera de um leito em um hospital que lhe oferecesse as condições de tratamento necessárias.

Muito abalado pelo anúncio recente da morte do irmão Nelson Silva Viana, de 62 anos, Valdemir não se conformava com a estrutura oferecida, hoje, às pessoas que dependem do serviço público de saúde. Sem conseguir conter as lágrimas pela perda do irmão e pela indignação sentida, ele acreditava que o irmão havia morrido por negligência do poder público.

“Foi negligência! Eles colocam nesse banco de leitos e não tem como… Se meu irmão tivesse sido transferido, acho que ele não teria morrido. Não é possível viver em um município como esse que morre criança, morre gente o tempo todo por falta de estrutura do governo”, criticava. “Meu irmão tava aqui há uma semana com problema renal. Tava aguardando um leito pra ser transferido para um hospital de referência em rim”.

Segundo Valdemir, o irmão deu entrada no hospital passando mal, porém, não em estado grave. Para ele, a transferência do paciente para um hospital equipado para tratar problemas renais poderia não apenas ter evitado o agravamento do caso, como até ter impedido a morte do aposentado. “Eu ‘ralo’ de sol a sol pra pagar tudo quanto é imposto, pra viver com dignidade e a gente vê os nossos entes queridos indo embora sem ninguém para fazer nada”, indignava-se. “O que falta é estrutura do Estado, eu nem culpo as pessoas que trabalham no hospital”.

Preocupação

Com a expressão também carregada de preocupação, a dona de casa Socorro Ferreira acompanhava a dor do homem que chorava em frente ao PSM com medo de que o mesmo acontecesse à sua família. No aguardo por respostas do estado de saúde do irmão Reginaldo Ferreira Maciel, levado para o PSM do Guamá ainda naquela manhã, ela temia o pior.

“O meu irmão foi atendido, mas desde segunda-feira que a gente tá rodando com ele. Ele fica sempre com uma dor no peito e só fazem mandar ele pra casa”, reclamava, ao lembrar que, sempre que o irmão se sentia mal novamente, a família o encaminhava para o PSM do Guamá. “Ele tinha que bater um raio-X pra saber que dor é essa, a gente tem medo que seja coração porque o braço dele até ficou paralisado numa dessas crises. Mas a médica disse que não tem raio-X, dá um remédio e manda ele pra casa”.

Segundo a família do paciente que seguia internado no PSM, mesmo com a constatação de que não era possível fazer o exame no hospital, o paciente não era encaminhado para outro em que ele pudesse ser melhor avaliado. “É um absurdo, era pra ter o equipamento pra ele fazer o exame aqui. Ontem a gente veio aqui com ele e mandaram a gente pra Unidade de Saúde do Guamá, mas lá não tem raio-X também, não tem nem clínico geral. Nunca encaminharam ele pra outro que tivesse, mas alguém tem que fazer alguma coisa”, afirma.

Ainda no Guamá, a mãe da doméstica Telma do Socorro chegou com fortes dores abdominais e, apesar de atendida, foi liberada ainda com dores. “Ela foi atendida, mas a gente não sabe o que ela tem. Aí ela devia fazer um raio-X, mas não pode fazer porque o aparelho não funciona”, relata. A mãe, Joana Cardoso, precisou de ajuda para chegar até o taxi. “Ainda estou com dor, me deram só uma injeção, uma dipirona, mas aí não tem muita coisa, está horrível”, disse a paciente.

Peregrinação pelos hospitais

Diferente dos problemas enfrentados no PSM do Guamá, na manhã de ontem, no Hospital de Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti, na travessa 14 de março, aparentemente, os pacientes não enfrentavam problemas para serem atendidos.

Porém, pela parte da tarde, Ronaldo dos Santos, morador do município de Mãe do Rio levou o filho na ambulância da cidade para cuidar de uma apendicite. “Lá ele foi atendido, mas não tinha médico, preciso de uma pediatra. Parei em Castanhal, mas não consegui. Viemos para o Pronto-Socorro da 14 de Março, aí nos mandaram para o do Guamá e agora mandaram a gente para cá de novo”, relata o pai.

“Ele sente muita dor, precisa fazer uma cirurgia. Tenho medo que isso estoure dentro dele. Deus livre a gente de perder um filho por imprudência dos outros”, completa. Até o final da tarde, a criança foi atendida. “Nós insistimos, aguardamos e um pediatra o atendeu”.

(Diário do Pará)

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