Barcos regionais que transportam sonhos!

Carlos Costa

Carlos Costa*

Grávidos de redes e dentro das quais engravidam mulheres também, os barcos regionais zarpam do porto de Manaus, a qualquer hora do dia e da noite e cruzam os rios Negro e Solimões, transportando homens, mulheres e crianças tristes por constatarem que na capital não é mais local para realização de sonhos, por culpa do desemprego nas indústrias, violência, falta de saneamento básico e grande riqueza das indústrias que exploram a mão-de-obra dócil e barata, sem qualquer contrapartida social.

Em meio à quietude e escuridão do Rio Negro e das barrentas e violentas águas do Rio Solimões, os barulhentos barcos regionais, sob as bênçãos de Deus, deslizam sob o olhar atento da lua e das estrelas, transportando a desilusão da ilusão de pessoas que buscaram realizações profissionais na capital e que retornam com a certeza de suas frustrações pela falta de oportunidade de emprego, ainda vivos diante da violência que mata sem perguntar nada, livres das drogas ou envolvidos com elas, mas tentando abandoná-las. Enfim, é uma cena triste, mas real e os barcos apenas ajudam a transportar passageiros sem lhes fazer quaisquer perguntas.’

Durante o dia, botos navegam acompanhando os barcos regionais, mas, ao contrario das lendas, não se transformam em homens elegantes de branco e não engravidam moças incautas que apenas sonharam com seus príncipes encantados que não os encontraram como desejavam entre os jovens que conheceram e namoraram na cidade grande! A esperança poderá estar no próximo porto, no próximo namoro – quem sabe não seja um príncipe encantado de verdade?

Muitos se perderam pelos caminhos tortuosos dos vícios, nas vielas sombrias, fedorentas, escuras e esburacadas da capital e derraparam em seus sonhos. Decidiram retornar para terem as mãos calejadas em suas terras, fugindo da agressão da polícia em despejos de terrenos realizados quase sempre com uso da força; é melhor um calo na mão de um cabo de terçado ou machado do que viver correndo da polícia na capital em busca de um pedaço de terra que podem chamar “de meu”.

Chorosos, com mãos vazias, levam saudades e certeza de que o sonho acabou antes de ser iniciado, acenando para pessoas tristes pela partida, com os sonhos desfeitos transportados dentro dos motores regionais.

Na escuridão das noites, as luzes derradeiras da cidade grande ainda clareiam o barco regional que vai deslizando com suavidade e sem afundar nos rios não balizados, tristes por transportarem pessoas tristes também.

Um sonho acabou, mas outro poderá começar no próximo porto!

*Carlos Costra é jornalista, cronista e escritor.

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