Bactéria pode ter causado a morte de bebês na Santa Casa do Pará

Em meio à onda de denúncias que colocou em cheque a gestão da Fundação da Santa Casa de Misericórdia do Estado, em função da morte de mais de 40 recém-nascidos em junho passado, um fato relevante vem à tona: o governo omitiu informações importantes da opinião pública e que ajudariam a explicar a grave situação pela qual passa a instituição.

O DIÁRIO teve acesso ao memorando n° 234/2013 – CCIH /FSCMPA, datado de 12 de julho, que pede o bloqueio (fechamento) das UTI´s Neonatais 2 e 3 e da Ala Cirúrgica da Santa Casa. O documento mostra que a área de neonatologia da maior maternidade pública do Estado estava contaminada por um tipo de bactéria resistente caracterizando, segundo infectologistas consultados pelo jornal, um surto que a área de saúde e o próprio governador insistem em negar até hoje.

O documento, assinado pela enfermeira Emília Matos Monteiro Gonçalves, da assessoria de Controle de Infecção Hospitalar da FSCMPA, relata que o resultado de três swabs (pequenas hastes com algodão na ponta onde é coletado o material dos recém-nascidos) analisados deu positivo para a bactéria. “Enterococcus faecium resistente a Vantomicina”, necessitando, segundo o documento, o bloqueio das alas para “controle ecológico dessas áreas críticas”.

O memorando faz uma série de recomendações entre as quais a alta médica ou transferência dos pacientes das alas infectadas para outros locais e a “desinfecção terminal” da UTI 3. Em relação à UTI 2 SI e Cirúrgica, a enfermeira recomenda o “isolamento rigoroso do paciente colonizado e/ou infectado pela bactéria”, higienização rigorosa das mãos e desinfecção de equipamentos, que deverão ser exclusivos para cada recém-nascido, bem como a restrição de circulação de pessoas nas alas. Ao final a enfermeira responsável pelo controle de infecção da Santa Casa é bem clara: “Manter fechada para internações/transferências a UTI Neonatal 2, ala cirúrgica e SI”.

No documento é citado que todo o manejo para desinfectar as alas foi feito com o conhecimento da “Dr. Salma”, no caso, Salma Saraty Malveira, gerente de Neonatologia da Santa Casa, nomeada para o cargo em 01 de setembro de 2001 de acordo com publicação no Diário Oficial do Estado (DOE), onde também aparece a nomeação de Emília Matos Monteiro Gonçalves no cargo de Assessora de Controle de Infecção Hospitalar da FSCMPA em 01 de fevereiro de 2013. O DIÁRIO atestou em cartório a assinatura de Emília Matos que consta ao final do memorando n° 234/2013 – CCIH /FSCMPA.

No último dia 10 de julho o DIÁRIO errou ao publicar uma foto de bebês em caixas de papelão como se fossem na Santa Casa. A imagem era de um hospital de Honduras. O jornal reconheceu o erro no dia seguinte e, no mesmo dia da publicação, o governador Simão Jatene armou um circo no Comando Geral da Polícia Militar, onde reuniu todo o staff das áreas de saúde e comunicação do governo para atacar os veículos da RBA, acusando o grupo de manipular fatos e fotos.

ATAQUE

Na ocasião o próprio governador – à exceção da foto – reconheceu as veracidade das informações e imagens contidas na reportagem publicada no último dia 10, mas tanto Jatene quando o secretário de Estado de Saúde, Hélio Franco, calaram sobre a contaminação por bactéria das alas pediátricas da Santa Casa. A confirmação da contaminação por bactérias veio dois dias depois da publicação da matéria, por parte da responsável pelo controle de infecção da instituição.

Fontes do DIÁRIO de dentro do hospital, afirmam ser impossível que Hélio Franco não tivesse conhecimento àquela altura (dia 10, à tarde) da situação das UTI´s Neonatais da Santa Casa revelada no documento assinado no dia 12. “Todos sabiam dessa contaminação no hospital. Só que não era conveniente para o governo falar nada, mas sim atacar a RBA”, afirma uma enfermeira que prefere permanecer no anonimato.

O infectologista Lourival Marsola explica que a principal característica das bactérias da espécie Enterococcus é a resistência a antibióticos normalmente utilizados para infecções, o que restringe ainda mais o tratamento. “Em UTI’s existem muitos pacientes graves e essas bactérias podem causar desde infecções mais simples às mais graves, que podem levar à morte de adultos e crianças, principalmente os neonatos, que são mais suscetíveis a infecções”, alerta.

Ele explica que a transmissão de bactérias Enterococcus, associada à infecção hospitalar, se dá de pessoa para pessoa. “São bactérias resistentes à limpeza habitual e são encontradas em maçanetas de portas, termômetros, estetoscópios e aparelhos de pressão, que são equipamentos usados em muitas pessoas. Por isso a higienização completa e constante das mãos e a proibição do compartilhamento desses equipamentos é fundamental”.

O conceito de surto, segundo o infectologista, depende da realidade anterior da unidade, o que só a Santa Casa pode esclarecer. “Se antes não tínhamos a bactéria e foram realizados três isolamentos num momento posterior, podemos considerar um surto, que é uma ocorrência além do esperado de determinada doença infecciosa, numa determinada região, num determinado tempo. No caso da UTI, se foram isolados três casos, podemos dizer que há sim um surto”, detalha.

O DIÁRIO tentou falar com a direção da Santa Casa ou com a enfermeira que assina o memorando, mas a assessoria de imprensa da instituição se limitou a divulgar uma nota informando que trabalha em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) por meio da Central de Regulação e faz a manutenção no número de leitos.

“O trabalho é para evitar a superlotação do setor de neonatologia. Além disto, a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar faz rotineiramente a desinfecção das áreas. Desta forma, a Santa Casa entende que os esforços estão redobrados”.

Novamente a Santa Casa cita a fala do ministro da Saúde Alexandre Padilha que em Belém teria reiterado que os problemas enfrentados com as mortes de bebês pela Santa Casa do Pará decorrem da falta de Atenção Básica à saúde nos municípios.

Repetiu ainda parecer do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas do Ministério “que descartou qualquer surto de infecção hospitalar na Fundação”.

(Diário do Pará)

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