“Terra Santa”!

Carlos Costa*

Depois de nossa chegada na fazenda do “tio Cirê”, de minha mãe Josefa, mas Cirilo no nome de batismo, a vida nova na comunidade de Ajaratuba, não melhorou muito, mas, pelo menos, a família passou a residir em casa de madeira, coberta toda de zinco, assoalho alto, construída dentro do terreno da fazenda, mas diferente das outras casas de dois andares com energia elétrica produzida por um grupo gerador. Mas, alguma coisa tinha melhorado não sei se para melhor ou se para pior, na abandonada comunidade do município de Itacoatiara, esquecida pelos administradores públicos. Meu pai Paulo Costa, agricultor que era, decidiu encontrar um terreno para iniciar sua plantação de milho, feijão, mandioca e macaxeira, que trazidos na mudança.

Quando desembarcaram tudo e após acomodar as poucas coisas na nova casa, meu pai começou a perguntar aos vizinhos, qual seria o melhor local para se plantar, produzir e colher. Paulo Costa, depois de muito procurar, encontrou terra boa, muito distante da casa que, embora erguida dentro do terreno da fazenda, também fazia extrema com a fazenda de outro casal de comerciantes, conhecido por seu Padrinho e dona Pedrinha. Depois da casa de comércio, existia um barracão todo aberto em suas laterais, onde se realizavam festas de “arrasta pé” com bandas da capital; um campo de futebol para torneios de pênalti ou jogos de futebol e, na frente, na lateral do terreno, um grande mastro no qual se hasteava pano colorido como se fosse uma bandeira, só para informar que haveria alguma coisa no local. A notícia do evento se espalhava rápida pela “rádio cipó”, informando inclusive o horário do evento. Os filmes exibidos o eram de forma improvisada, com um pano branco fazendo vez de tela para que as pessoas, maravilhadas pela “novidade”, pudessem apreciá-los. Em dias de festas ou de visitas raras de políticos, normalmente estouravam foguetes e subiam a bandeira no mastro.

O “tio Cirê” autorizou meus irmãos Roberto Costa, contador e professor universitário e Nilberto, economista, a apanharem leite todos os dias em um curral longe de casa. Os dois irmãos montavam em um cavalo manso, capado, o que lhe gerava lentidão nos movimentos de trote, mas a mãe nada sabia de nada. Uma vez, o cavalo tentou acompanhar os vaqueiros que passavam ao lado e o leite, que era para servir de alimento aos membros da família, derramou quase todo e, servindo, apenas, para aguar o mato circundante, fazendo nascer flores pelo caminho. Ao chegarem sem o leite, Roberto e Nilberto contaram o que havia acontecido e dona Josefa Costa brigou com eles porque “estavam proibidos de montar no cavalo”. Só assim, da forma mais maluca possível, a mãe descobriu que usavam cavalo para apanhar o leite no curral. Não havia nada que se pudesse esconder de nossa mãe porque mais cedo ou mais tarde, ela descobriria! Algumas vezes ficava só no “ralho” mesmo; mas, em outras era surra no couro!

Durante a exibição dos filmes “trazidos diretamente da capital”, também sonhava em ser “fazedor daquilo que se movimentava”, na inocência de meus 7 para 8 anos de idade, sentado em cima de sandálias havaianas, no chão ou em bancos grandes, “tipo de igreja” como eram conhecidos os bancos coletivos. Finalmente, depois de muito perguntar, procurar e analisar, meu pai encontrou um local ideal para cultivar os alimentos necessários à vida de todos, mas era um pouco distante “um dia de canoa” um dia ou pouco mais do que isso se a pessoa fosse a pé.

Chamava-se “Terra Santa” o local; o porquê se chamar assim não sei, mas que era “santa”, ah, disso tenho certeza porque dessa “terra santa e abençoada” eram extraídos o milho para os pintos que minha mãe criava na parte debaixo da casa, feijão, mandioca para farinha e macaxeira para bolos e outros alimentos derivados. Ah, que lembranças boas de uma época que me perseguem e eu me recuso a esquecer, porque lembrar o passado é viver duas vezes: no presente e no passado gostoso de minha infância pobre, mas feliz!

Só que as comunidades rurais do Amazonas ainda continuam muito abandonadas, esquecidas e só recebem políticos em época de campanha. Depois, desaparecem todos, esquecem suas promessas e só reaparecem em uma próxima eleição pedindo votos e os caboclos continuam votando, quer por falta de conhecimento de outros, quer por falta de opção mesmo!

*Carlos Costa é assistente social, escritor, cronista e jornalista
carloscostajornalismo.blogspot.com 

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